Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Como interpretar uma Revolução Solar?

No post anterior eu comecei a falar sobre o método de previsão mais popular da idade média e renascença: direções primárias + revolução Solar. Também lancei no ar uma frase não-tão-enigmática assim:
Na revolução, qualquer coisa que signifique o nativo deve estar em contato com qualquer coisa que signifique o evento

Neste artigo, vamos decifrar a frase acima: você aprenderá a interpretar uma revolução solar de um modo minimamente decente pra você já fazer alguma previsão.

Para ter um entendimento satisfatório desse artigo, você precisa saber alguma coisa de astrologia: o que cada casa e planeta podem representar, o que são partes árabes, e o que são aspectos/conjunções. É um artigo para os já iniciados, mas você que está começando agora pode consultar outras fontes pra entender o que falo aqui – com a internet, não será difícil.

Como nascem os eventos?

Oi! Sou um evento!

As aulas de astrologia horária que você anda fazendo com o tio William Lilly deveriam te levar a mais além de encontrar seu cachorro. Elas ensinam um paradigma fundamental da astrologia em qualquer tipo de mapa – seja ele natal, horária ou mundana: um evento é fruto do encontro de dois significadores.

Ei! Não se esqueça dos significadores!!!

O que seriam significadores? Neste artigo, emprego o termo para se referir a qualquer coisa, dentro de um mapa, que faça menção a uma pessoa ou objeto. Qualquer coisa mesmo: casas, planetas, partes árabes, etc. Usando essa acepção, a pessoa que é dona do mapa (vulgo nativo) teria como significadores o Ascendente, seu regente, e planetas que estiverem dentro do Ascendente. A mesma coisa com as outras coisas indicadas pelas outras casas.

Quando simplificamos o conceito de significadores, e usamos isso na frase não-tão-misteriosa acima, a astrologia na prática se torna muito parecida com a matemática que faz seus cálculos de mapas. Na verdade, as previsões podem ser resumidas a simples fórmulas de aritmética, como no exemplo abaixo:

  • Nativo + parceira(o) = sexo ou casamento.

Ainda não entendeu? substitua os termos “nativo” e “parceiro” acima por qualquer significador do nativo e qualquer significador do parceiro no mapa. o sinal de “+” representa qualquer maneira de combinar os significadores do nativo com o os significadores do parceiro. Por exemplo: o ascendente representa o nativo. O regente da 7 representa o parceiro. Portanto, ter o regente da 7 no Ascendente é apenas uma das maneiras de escrever a fórmula acima. Regente do Ascendente em aspecto com o regente da 7 é uma outra maneira de dizer o mesmo.

Se você estender esse raciocínio a todas as casas, terá a fórmula da vida escrita nas estrelas. Exagerei? Sim, porque se fosse tão simples assim, em cada esquina teríamos um astrólogo bom e honesto. Mas todo exagero tem um fundo de verdade, como você verá ainda nesse artigo.

Veja os modos mais comuns da “fórmula” acima se manifestar dentro de um mapa. Todos eles nada mais são do que a tradução da soma 1 + x = evento, sendo 1 a pessoa cujo mapa se analisa e x a casa que representa um evento:

  1. Regente do Ascendente na casa do evento desejado/temido 
  2. Ascendente da Revolução Solar na Casa natal do evento desejado/temido 
  3. Aspecto/conjunção entre o Regente do Ascendente e o regente do evento desejado/temido.
  4. Ascendente da Revolução Solar em conjunção com o significador essencial do evento desejado/temido (Vênus = amor, Saturno = doença, etc)
  5. Regente do Ascendente da Revolução Solar em conjunção ou aspecto com o significador essencial do evento desejado/temido

O lamentável fato é que as cinco combinações acima acontecem num mapa em quantidades assombrosas, e nem sempre elas representam um evento. Eis o que diferencia os astrólogos meninos dos homens: num mapa, dentre as centenas de informações, selecionar apenas as relevantes.


Separando o joio do trigo dentro de uma revolução solar

Nem tudo que está escrito acontece, mas tudo que acontece está escrito.

Vejamos a revolução acima. Vamos retirar alguns exemplos similares às fórmulas acima, sem misturar muito os significadores. Por exemplo, a Lua está em aquário em conjunção com Vênus. Lua rege a 7 e Vênus rege a 5. Então temos Parceira + crianças = filho? Será mesmo que terei um rebento?

Mas não é só isso. Temos outras dezenas de fórmulas…

Regente da 1 na 11 = novos amigos, novo grupo
Regente da exaltação da 1 na 10 = aspirações na carreira, reconhecimento
Lua na 2 = mais dinheiro
E assim sucessivamente…

Você descobrirá que num único mapa há dezenas de combinações – todos eles podem ser reduzidos à manifestação da equação 1+x = evento. E aí chegamos à etapa da análise que o aspirante a astrólogo está assim:

Céus! Chega de astrologia, vou prestar concurso público!

Esse desespero é realmente necessário? Claro que não. Numa revolução solar, nem tudo que aparece acontece, mas as fórmulas são a melhor maneira de se analisar o mapa. O “pulo do gato” reside em aprender a selecionar as fórmulas corretas, e não esquecer de nenhum dos significadores do nativo – pois eles serão muitos e, o que é pior: numa revolução, os planetas apresentam determinação natal e revolucional AO MESMO TEMPO.

Isso mesmo, leitor. Tá vendo aquela lua na revolução acima? Dentro daquele mapa, a lua rege a casa 7 e está na casa 2 mas, no meu mapa natal (que não está aqui), a Lua rege a casa 4. Devido a isso, dentro da Revolução Solar, ela pode se lembrar do que representava no mapa natal e funcionar como o regente da 4!

Mas se acalme, as coisas podem ficar um pouco pior:

E aí? Tá estudando astrologia pra ter papo com as gatas ou pra fazer previsões?

O mapa mais externo é a revolução solar e, o mais interno, o mapa natal. Sabe aquelas combinações que apelidamos de “fórmulas” no início do artigo? Esqueci de mencionar que elas podem ocorrer também entre a revolução e o mapa natal!

Te desanimei? Calma, o final feliz tá chegando: muita coisa dentro de uma revolução solar não serve pra nada, mas você não vai precisar analisá-la toda para saber isso. Nós temos um poderoso filtro de impurezas chamado direções primárias, que poupa considerável trabalho e ajuda o astrólogo a selecionar o que realmente importa.

É simples. Pegue as direções primárias que ocorrerem próximas à Revolução analisada e as estude com afinco. Disseque todas elas (serão poucas). As direções mais fáceis de serem estudadas são aquelas onde o Ascendente é significador e recebe a direção dos planetas, porque temos de nos preocupar apenas com as casas que o planeta dirigido ao Ascendente rege.

Por exemplo, se Saturno estiver em direção ao Ascendente e ele rege a casa 10 e 11 natais, e está na 7, então o nativo tem a chance de ter:

  • 1 + 10 = fama ou infâmia, progresso ou retrocesso na carreira, 
  • 1 + 11 = amigos, grupos, novas amizades, aumento de salário, ou ostracismo, isolamento e dificuldade em receber; 
  • 1 + 7 = sexo, casamento, negócios ou a corrupção desses temas.

Agora memorize essas informações e veja se essas fórmulas (1 + 10, 1 + 11 ou 1 + 7) se repetem na Revolução Solar. Aquela que mais se repetir, é a que tem a maior chance de acontecer nesse ano – mas todas podem acontecer. Por exemplo, o ascendente da revolução solar é capricórnio, que cai na casa 10 do mapa natal: isso é um sinal da fórmula 1+10 se repetindo. Além disso, o regente do Ascendente da Revolução cai na 11, o que é outra manifestação da fórmula 1+11. Tem alguma coisa 1+7 nessa revolução? Sim: marte da RS é regente do ascendente natal e está em libra, sétimo signo a partir do Ascendente natal.

Há algum interaspecto entre a revolução solar e o mapa natal que repita as fórmulas acima? Sim. Perceba que a Lua natal está em Touro, ainda caindo dentro do território da 1 – podendo ser usada como outra significadora do Ascendente. Na Revolução, a Lua está em Aquário, ainda conserva a determinação natal (de ser a significadora da 1) e faz conjunção com Vênus natal com orbe de três graus, sendo Vênus natal regente da Casa 7 natal: mais uma repetição da fórmula 1+7, mas dessa vez entre os dois mapas.

Explore as duas figuras, juntas ou separadas, e veja como as fórmulas da direção primária se repetem. Sabendo fazer isso, já dá pra prever muita coisa. E lembre-se: os planetas de uma revolução ainda se lembram do que eles regem/significam no mapa natal!

Agora que você já sabe os princípios, o sucesso da previsão dependerá da sua atenção em se lembrar do que cada planeta representa em cada mapa, perceber os aspectos dentro de cada mapa e interaspectos entre a Revolução e a Natividade, de modo a tomar consciência de todas as fórmulas que podem acontecer no ano, sempre procurando por aquelas que forem respaldadas pelas direções primárias mais próximas do ano em questão.

No próximo artigo, vamos adicionar mais um detalhe: como saber se o evento será bom ou ruim. Bye.

7 Comments»

  Pedro Joffily wrote @

Uma das partes mais difíceis da minha vida foi quando eu nasci. Nasci prematuro, com algum problema pulmonar, e 7 meses depois, tive uma meningite. E tenho dificuldade de analisar esse período da minha vida, porque nenhum planeta havia sido dirigido ainda (só Júpiter por termos do ascendente) e a RS era… o meu mapa? Mesma coisa com profecções. E eu considero meu Júpiter muito bom, não entendo porque ele daria isso. A única coisa que eu vi que faz sentido é minha firdaria, a Lua/Lua (minha Lua é bastante ferrada). Você já analisou técnicas preditivas pra bebês?

  Anônimo wrote @

Acho ótimo vc escrever sobre como fazer previsões mas seria possível em um outro artigo ou artigos falar um pouco sobre como fazer uma direção? Desde já muito obrigada por todas as suas dicas e ensinamentos.

  Rodolfo Veronese wrote @

@Pedro Joffily
Sua resposta deve estar na análise de vitalidade do recém nato, que era abordada por tantos astrólogos do período clássico e medieval. Temos quem fale do assunto Dorotheus, Māshā'allāh, Abu Ma'Shar, Bonatti, Alcabitius, Abū 'Ali al-Khayyāt, Omar, etc etc…

Em resumo, veja onde estão o regente do ascendente, os regentes da triplicidade do Ascendente, o lote da fortuna, o sol e a lua. Se a maioria destes se encontrarem cadentes, e se nenhum benéfico estiver em casas angulares e sucedentes que aspectem o ascendente, então pode explicar por que você quase morreu no primeiro ano de vida. Talvez se vivesse na idade média, estaria morto. Sem exagero nisso.

  Rodolfo Veronese wrote @

@ Anônimo

Escrever sobre direções é demasiadamente cansativo porque nenhum autor explica a plenitude dos fundamentos. Com TODOS os autores, chega um momento nos seus textos em que eles assumem a seguinte postura: você, leitor, deve confiar em mim daqui em diante. Não vou conseguir explicar pra você, mas aceite o que escrevo.

Então não dá pra explicar 100% o que seriam direções primárias, mas dá pra explicar a essência, o que é mais importante e ensinar o estudante a escolher as configurações comuns na idade média. Futuramente escreverei mais a respeito.

  Pedro Joffily wrote @

Tenho asc Aquário e nasci de noite. Mercúrio no mesmo grau que o Sol (cazimi? recepção por estar em leão?) no sétimo signo mas na casa 6. A Lua está em leão também, combusta também, e também na 6 (acho que a recepção me salvou). Saturno e Júpiter (triplicidades de ar) sucedentes

  Isis wrote @

Se na revolução solar eu tenho júpiter e vênus em leão em conjunção na casa 1, ambos em quadratura a saturno retrógrado da RS(na 4-escorpião)…e comparando ao mapa natal, vênus da RS está em conjunção exata com júpiter natal(na 9-áries)e ambos em trígono a saturno direto natal.
Qual aspecto eu considero mais importante? a quadratura atual da revolução solar? ou o trígono em relação ao mapa natal?

  Rodolfo Veronese wrote @

Isis,

Ambos são importantes. Um evento tem uma chance maior de ocorrer quanto maior for o número de “fórmulas” (vide artigo) que o conceba, seja na revolução, seja no mapa natal. Mas se a revolução solar apresenta uma união por quadratura, enquanto os mesmos são unidos por trígono no mapa natal, então o que é normalmente calmo na vida da pessoa fica tenso nesse ano.


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