Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Dignidades (parte 6-extra) diferenças entre a jyotisha e o ocidente

Eu quis fazer esse complemento porque estudo astrologia medieval e jyotisha.

Antes de você pensar que misturo as duas astrologias, quero dizer que não. Tento compartimentalizá-las em locais diferentes, na minha mente, o máximo possível.

Mas nem sempre é possível. Em 100% das vezes em que penso jyotisha, eu não misturo com astrologia ocidental; por outro lado, em 10% das vezes em que penso em astrologia clássica ocidental, eu acabo incluindo alguma coisa de jyotisha. Isso porque a astrologia clássica tem muitas lacunas, nas quais a jyotisha pode entrar para ajudar, sem conflitos teóricos graves. Todavia, em todos os casos, eu prefiro não misturar como cada astrologia concebe as dignidades, e nós vamos mostrar aqui como isso ocorre.

Quando alguém que é versado em Parasara (sábio indiano e principal autor da Jyotisha) analisa uma dignidade, ele quer saber se os significados do planeta são auspiciosos ao nativo ou não. Se o planeta estiver em signo amigo (tirando todos os complicadores secundários, como aspectos de inimigos, etc.), então, a casa onde o planeta está tem um quê de auspicioso, no âmbito dos significados planetários. Se estiver em signo inimigo, as qualidades do planeta prejudicam a casa. Simples assim.

Com a Astrologia Medieval, as coisas são bem diferentes. Quando um astrólogo medieval analisava uma dignidade, ele poderia coletar alguma informação dentre as três:

  • pureza da manifestação de um planeta (se estiver domiciliado), 
  • conflito psicológico (se estiver em detrimento)  
  • elevação social que o planeta indica (se o planeta estiver em queda ou exaltação). 

 Mesmo diante de tudo isso, o astrólogo ainda não pode falar que essas coisas seriam boas ou ruins para o nativo: para dizer isso, ele precisa verificar se esses planetas estão ou não determinados aos significadores do nativo  (ascendente, sol, lua lote da fortuna e seus regentes).

Em termos de dignidades, creio que a interpretação dos planetas pode ser similar em apenas uma coisa: Em ambas as astrologias, benéficos em casas de significado ruim para o nativo indicam que os males da casa são aliviados.  Maléficos, o contrário. Afora isso, não há mais nenhuma convergência clara entre os dois modos de se pensar nas dignidades.

Alguns autores ocidentais se aproximam muito dos indianos e tendem a considerar que um planeta dignificado pode ser bom, e sua presença numa casa ruim seria tão benfazeja para aliviar seus males quanto a presença de um benéfico ali. Todavia, isso foge um pouco do que outros autores, os mais influentes, pensam a questão das dignidades.

A verdade é que os autores nem sempre dizem a mesma coisa, apesar de haver uma coesão suficiente entre todos que nos permite chamar o conhecimento astrológico produzido na idade clássica e na idade média de um nome só, a saber, “astrologia tradicional”.

Portanto, se você for corajoso o bastante para querer estudar as duas astrologias, eu lhe advirto com um exemplo, mas atenção: ele contém muitos conceitos que talvez você não conheça. Não se preocupe se não entendê-los. Mais importante é ver as diferenças de interpretação.

Suponha que dois astrólogos, um medieval e outro jyotisha, queiram analisar a seguinte configuração:

Lua em Touro na 12 (regendo a cúspide da casa 3).

Note que fui bonzinho e nem considerei aspectos.

  • O astrólogo clássico/medieval não usa mapas divisionais como o jyotisha, então ele só tem o mapa natal, que os indianos chamam de Rasi. Ele vai considerar que a Lua rege a casa 3 (irmãos) e que sua presença na casa 12 os colocam como inimigos secretos (um significado da 12) do nativo. A Lua está exaltada, mas não se conecta com nenhum significador do nativo de modo positivo e, portanto, ela não ajuda em nada a pessoa dona do mapa, apenas atrapalha pois, dessa forma, a exaltação lunar indica que o(a) irmão(ã) do nativo é socialmente superior a ele, possuindo mais utensílios para ferrá-lo e dispondo de um controle emocional e psicológico grande a seu favor (a melhor qualidade da Lua).
  • O jyotisha olharia essa lua na 12 de um modo completamente diferente… Primeiro, não há na Jyotisha essa noção da casa 12 representar inimigos secretos… Para eles, a casa 12 indica gastos financeiros, renúncias ou escapismos. Se a lua regesse a cúspide da 3, indicaria que os gastos são com aprendizado de coisas novas ou com irmãos. Dito isto, o jyotisha olharia em mapas divisionais diferentes para ver o tipo de questão que a Lua mais afeta. Os mapas divisionais nos quais a lua está dignificada indicariam facetas da existência que ela ajuda. Se a lua estiver em boa dignidade na navamsa (D-9), indica que ela os gastos financeiros com educação ou com os irmãos dão sentido à vida da pessoa; se estiver dignificado na Nakshatramsa (D-27), indica uma grande capacidade de resolver problemas com os significados da lua (no caso, indicaria boa saúde mental); se estiver dignificada na drekkana (D-3), significaria uma boa capacidade de cooperação. 

Como Parasara define 16 mapas divisionais, eu poderia desfiar aqui um rosário de facetas que a lua representa e que nos daria certeza do que ela indicaria quando seu Dasha (período planetário) for ativado…

Talvez você esteja se perguntando o porquê das duas astrologias usarem o mesmo mapa e terem abordagens tão diferentes com o mesmo número de casas e de planetas… A resposta mais decente para essa indagação é que o mapa astral é um reservatório de símbolos capaz de representar a vida da pessoa nos seus mínimos detalhes. Como só temos 12 casas/signos e 7 planetas, seria óbvio que uma casa representasse mais de um assunto em diversas dimensões da vida. Por isso, podemos dizer que tanto o indiano, que atribui à casa 12 o significado de gastos, quanto o ocidental, que a associa a inimigos secretos, estão certos.

Cada escola tem suas preocupações, que refletem as culturas nas quais elas surgiram. As demandas de um indiano eram diferentes das demandas de um ocidental na Europa Medieval. A astrologia indiana se preocupa muito mais com espiritualidade do que a ocidental; não à toa ter técnicas para ver se a pessoa vai para o céu (sim, é isso mesmo que você leu). A Medieval era mais pragmática, preocupada com assuntos mais mundanos, e não ligava muito para a espiritualidade – embora possua algumas técnicas nesse sentido.

1 Comment»

  David wrote @

Olá
Gostaria de saber se você faria meu mapa astral e com quem você estudou astrologia.
Abs
Luiz


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