Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

A polêmica dos sistemas de Casas na Astrologia.

Quem pratica astrologia clássica/medieval, sabe que há dois tipos de sistemas de casas que se pode usar: o sistema de quadrantes e o sistema de signos inteiros. O primeiro é popular na Astrologia ocidental, e o segundo foi popular na astrologia helênica e até hoje é na Védica (Jyotisha).

Na história da astrologia, o sistema de casas mais antigo é o de signos inteiros, no qual o signo que o Ascendente toca é a primeira casa. Não há cúspides que definiriam o começo e o fim das outras casas – há apenas o Ascendente/Descendente e o Meio do Céu/Fundo do céu. Os limites das casas são os signos. Desse modo, a segunda casa começa com o segundo signo a partir do Ascendente, e assim sucessivamente.

O primeiro sistema é o de signos inteiros, mas o sistema de casas quadrantes é muito antigo também. Há registro dele já no século 1 depois de Cristo, na obra de Vettius Valens. No quinto livro da antologia, Valens dá um exemplo de interpretação da profecção que leva em conta tanto o sistema de signos inteiros como o sistema de quadrantes.

Depois de Valens, conheço exemplos do uso de signos quadrantes e de signos inteiros já na idade média, com Masha’Allah. No livro Astrological History of Masha’Allah, Kennedy traduz um trecho que mostra a escolha do árabe para o regente do ano. O Ascendente era Libra, e Vênus estava em Escorpião. Nas palavras de Masha’Allah, como Vênus estava ainda na primeira casa por divisão, ela preenchia os critérios para ser regente do ano da carta de ingresso do país.

Assim como Valens e Masha’Allah, deve haver por aí dezenas de exemplos do uso dos dois sistemas de casas. Apenas minha ignorância de grego e latim não me permite conhecê-los.

Há quem diga que eles usavam o sistema de signos inteiros para ver assuntos, enquanto o sistema de quadrantes era usado apenas para mensurar a força do planeta. Por exemplo: Eu tenho Júpiter em Escorpião no oitavo signo a partir do Ascendente (vide figura abaixo). Portanto, ele teria a ver com os temas de morte e do ocultismo. Porém, Júpiter está entre a cúspide da 7 e a cúspide da 8, que o configura como pertencente à sétima casa (por quadrantes). Alguns astrólogos dirão que Júpiter é forte porque está perto da cúspide da 7 (e avança em direção a ela, ficando cada vez mais forte à medida em que o tempo passa), mas que não tem influência em nenhum assunto de casa 7 – porque, para eles, as cúspides não tem valor de significado, apenas de força/fraqueza de um planeta.

Os crentes nesse argumento possuem várias evidências a favor. A maioria dos astrólogos do período clássico usavam apenas o sistema de signos inteiros para definir os assuntos (tópicos) da vida do nativo. Entretanto, há evidências claras de que as grandes referências da astrologia clássica e medieval usavam ambos os sistemas para definir tópicos, e não apenas força.

Voltando ao trecho do quinto livro da Antologia de Vettius Valens, percebe-se que o autor usa o sistema de signos inteiros e o sistema de quadrantes para se extrair significados:

“Um exemplo: Gêmeos no Ascendente, Meio do Céu em Aquário (quando calculado por grau). O décimo lugar (cúspide do meio do céu) inclui locais relevantes a ação, posição social e filhos*. Também inclui os locais das viagens ao exterior e de Deus, já que ele se encontra no nono local a partir do Ascendente.”

Trecho de: Riley, Mark. “Anthology of Vettius Valens.”

Nota do autor: *Além dos temas convencionais da Casa X que todos conhecem, Valens atribuia a ela a produção de crianças.

O trecho em negrito indica que Valens está usando o meio do céu – uma cúspide – como um indicador de assuntos, e não apenas como um indicador de força. Isso seria uma evidência a favor de se usar as cúspides para se indicar assuntos também, além do sistema de signos inteiros.

O trecho acima mostra duas coisas: o meio do céu – uma cúspide – pode ser usado como representante de assuntos – seus temas seriam os mesmos que os do décimo signo, mesmo se o meio do céu estiver no nono ou 11º signos. Essa medida, entretanto, não inutiliza o sistema de signos inteiros, pois Valens usa o signo onde cai o meio do céu também como um representante de temas: o nono signo ainda representaria viagens, estudos e religião (que ele chama de ‘Deus’), mesmo contendo o Meio do Céu.

Portanto, esse argumento de que o sistema de signos quadrantes não era usado para tópicos da vida pode não ser inteiramente verdadeiro. Uma vez escolhida essa hipótese, porém, muitos estudantes se congelam diante do mapa, pois se vêem completamente perdidos diante do que seriam contradições aparentes, como no caso da casa 7 do meu mapa.

Se a hipótese de se considerar simultaneamente os dois sistemas de casas, qual seria a melhor maneira de se interpretá-los? Foi preciso um certo distanciamento da astrologia por uns tempos para que eu encontrasse uma resposta satisfatória. E a resposta é o caminho mais simples.

A melhor maneira de se interpretar os dois sistemas de casas é: não misturar os significados das casas apenas porque elas contam com os mesmos planetas. Parece complicado, mas é mais simples do que parece.

Vamos contar os casos de planetas que seriam “ambíguos” no mapa acima, ou seja, que estejam se referindo a duas casas diferentes pelos dois sistemas. São eles:

  • Sol: Está no signo do Ascendente mas já declina do ângulo e, portanto, estaria dentro do território da casa 12. Teria a ver tanto com o corpo (Ascendente) quanto o mau espírito (casa 12).
  • Lua: Está no segundo signo a partir do Ascendente mas, ainda, na primeira casa do sistema de quadrantes. Tem a ver, portanto, com o corpo, a inteligência (1) e com as finanças e angústias (2).
  • Marte: está no sétimo signo, porém na sexta casa. Teria a ver com doenças, trabalho, inimigos, azares (Casa 6), e com negócios, parceiros e sexo (7).
  • Júpiter: Está no oitavo signo a partir do Ascendente e tem relação com morte, crises e ocultismo (8º signo); ao mesmo tempo, está na casa 7 por divisão e diz respeito às mesmas coisas de marte ditas acima.

Olhando o panorama acima, é melhor pensar as coisas sem confusão e com calma. À primeira vista, é tentador combinar todas as coisas que um único planeta representa, mas isso não deve ser feito, e eu explico o porquê a seguir.

Há uns cinco anos atrás, eu fiz o mapa de uma colega de faculdade que tinha o Sol em Escorpião no quarto signo e na Casa 3. No ano em que o sol ficou ativado por profecção, ela fez uma viagem (casa 3) para visitar seus parentes e estabeleceu o local onde moraria nos anos seguintes (casa 4), após se formar em medicina. Ou seja, o sol, ao mesmo tempo, funcionou tanto para a casa 3 quanto para a casa 4, e DENTRO do mesmo evento. Entretanto, se a previsão levasse em consideração apenas um dos sistemas de casas, ela ainda seria correta, ainda que parcial.

Agora, imagine que você não sabe ainda o que acontecerá com a moça acima e decidisse ler o mapa dela usando os dois sistemas de casas: primeiro, diria que o sol está na casa 3, então isso indicaria uma viagem; em seguida, diria que o sol está no quarto signo, então também se ativaria questões envolvendo residência e família. Você acertaria 100% o que ocorreu com ela, com simplicidade e sem inventar maneiras loucas dos dois sistemas de casas serem combinados.

As tais “maneiras loucas” podem acontecer sim, mas não cabe a você, um humilde astrólogo, a usar de imaginação para adivinhá-las. É preciso ser simples na análise, porque você vai muita coisa a verificar, o que pode ser enlouquecedor e fazer você terminar sua leitura com uma baita dor de cabeça – literalmente.

 

3 Comments»

  Anônimo wrote @

Ótimo estudo!

  Luís Gonçalves wrote @

Olá Rodolfo,

Muitos parabéns por este seu blog. Não conhecia mas fiquei surpreendido.

Adorei o estudo que você fez, porque coincide na perfeição com a minha perspectiva. O meu sistema de casas preferido é, sem dúvida, o sistema de Signos Inteiros (o mais antigo sistema “natural” de casas). No entanto, uso simultaneamente o sistema de Porfírio (o mais antigo sistema de quadrantes e o mais simples de todos, dispensando tabelas), e acho que de facto os dois têm algo de correcto.

[ Apenas como nota, eu uso o Zodíaco Sideral: já tentou interpretar o seu mapa astral usando esse zodíaco?😉 ]

Muito obrigado, Rodolfo, e continue o bom trabalho!🙂

Luís Gonçalves

  Luís Gonçalves wrote @

Rodolfo,

Fica aqui o seu mapa sideral. Talvez lhe interesse!

http://s21.postimg.org/mv3l7u493/Rodolfo_Veronese.jpg

Abraço🙂


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