Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Yogakarakas: pra que servem?

O texto Brihat Parasara Hora Sastra mostra a astrologia em toda sua complexidade. Muitas pessoas não conseguem entendê-lo por completo, sendo seu entendimento seletivo. As pessoas escolhem um ou mais trechos dele para praticar astrologia.

Fazem isso por duas razões: ou eles apenas aplicam o que tem segurança e seus pais ensinaram, ou crêem que dois ou mais trechos do livro se referem ao mesmo conceito. Entretanto, alguns autores – como Ernst Wilhelm – não acreditam que essa redundância exista.

Para Ernst, cada princípio do BHPS se refere a um conceito diferente. Com essa postura, fica evidente que ele analisaria o tema dos Yogakarakas de um modo diferente da maioria.

O capítulo dedicado aos Yogakarakas geralmente é interpretado como se fosse destinado a ensinar quais planetas seriam maléficos e quais seriam benéficos para determinado ascendente. Pelo menos, é assim que a maioria dos astrólogos entende. Entretanto, existe outro capítulo, logo no início do livro, que tem o mesmo objetivo. Diante disso, cabe questionar: seria mesmo esse o objetivo dos Yogakarakas?

Se você pensar como Ernst, e crer que cada capítulo se destina a um conceito diferente, vai gostar da resposta que ele criou para essa pergunta.

O capítulo dos Yogakarakas não serviria para saber se um planeta é maléfico ou benéfico. Isso já foi dito num dos primeiros capítulos do BPHS. Ao invés disso, ele serve para se detectar quais planetas seriam auspiciosos para determinado ascendente. Mas a que se refere o termo “auspicioso” nesse contexto?

Os livros de astrologia clássicos pecam pela economia de termos e pobreza de sinônimos. Muitas vezes, termos como “bom”, “mal” e “auspicioso” são usados repetidamente em contextos variados, embora se refiram a coisas completamente diferentes a depender do trecho no qual é usado.

No contexto do capítulo de Yogakarakas, “Auspicioso” não se refere à capacidade de produzir prosperidade material ou bem-estar físico. Para essas coisas, se delegam outros capítulos do BPHS. Aqui, o termo se refere à capacidade da pessoa conseguir seguir seu dharma. Mas antes, precisamos entender esse conceito importante da filosofia hindu.

O que é dharma?

No Bhagavad Gita, Krishna diz a Arjuna que o homem feliz é aquele que segue seu swadharma. Como muitos conceitos de uma filosofia alheia a nossa, não existe uma tradução adequada para dharma. A mais próxima seria “vocação”.

No ocidente, vocação é normalmente referido a um “chamado interno” que a pessoa tem para relalizar um objetivo de vida. Dharma englobaria esse conceito, com um diferencial: não somente mostraria o chamado, mas ao mesmo tempo se referiria à natureza da pessoa, que teria sido feita especialmente para esse propósito.

A vocação de uma vela seria iluminar o mundo. O dharma dela seria a mesma coisa, com o adicional de que seu corpo todo foi criado visando isso. A parafina de seu corpo, o barbante dentro da parafina, a forma cilíndrica… Tudo isso foi criado visando iluminar por longos períodos de tempo.

É um belo conceito, mas pode ser triste. A verdade é que todas as pessoas teriam um dharma, mas nem todas conseguiriam realizá-lo. Várias coisas podem entrar na frente disso e a pessoa pode passar a vida inteira à deriva dos seus desejos (kama), do dinheiro (artha) ou das fugas (moksha). É aí que entra o capítulo de Parasara!

Cada ascendente tem seus planetas auspiciosos e inauspiciosos, para promover ou impedir a realização do dharma. Parasara delineia as regras para isso no início, mas alguns ascendentes possuem exceções. Então é o tipico caso de se memorizar um a um. Entediante, mas necessário.

Os planetas inauspiciosos para um determinado Ascendente podem ser muito bons em algum sentido. Por exemplo, para o Ascendente Áries, Vênus seria inauspiciosa. Por mais que o indivíduo goste da sua vida sexual, ela poderia desviá-lo do seu dharma. Depende do modo como Vênus está no seu mapa.

Concluindo: sempre que um autor ou astrólogo que pratica Parasara usar duas técnicas para se referir a um mesmo conceito, desconfie se aquelas técnicas se referem a conceitos diferentes ou não.

2 Comments»

  Márcio wrote @

Oi, Rodolfo! Ótimo texto!
Duas perguntas:

1) É certo misturar dois conceitos? Por exemplo: tirar alguma conclusão do fato de o Atmakaraka estar na casa 2 do Lagna?

2) Sobre o termo “Moksha”. No Jaimini, pelas traduções que li, esse termo é referido como sendo a “emancipação final” da alma (é aquele famoso Yoga, que diz que quem tiver Ketu na casa 12 do Karakamsa terá Moksha). Sempre interpretei isso como uma vitória da alma ao executar o(s) seu(s) dharma(s) e não uma fuga. Afinal, ter Ketu na casa 12 do Karakamsa é bom ou ruim?

  Rodolfo Veronese wrote @

você pode ousar e misturar, sem problemas.

ter ketu na 12 do karakamsa é bom.

Existem 2 tipos de mokshas: a iberação e a fuga. Quando alguém se droga, ela está fugindo da realidade. Quando a pessoa se liberta de qualquer forma de prisão – seja ela social, ou espiritual – é o moksha no sentido mais nobre da palavra. Você pode obter isso em qualquer religião (ou sem religião), porque não depende de um ídolo, é um movimento pessoal que a religião pode ajudar a canalizar.


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