Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Abu Ma’Shar, Revolução Solar e mapa natal.

É interessante que Abu Ma’Shar tenha uma abordagem um pouco diferente de Morin no que tange à interpretação de planetas nas Revoluções Solares. Apesar do interesse que desperta, qualquer astrólogo mais experiente deduziria que os dois astrólogos produziriam abordagens com alguma diferença porque se valem de técnicas diferentes.

Como Morinus não usava com frequência Lotes, a determinação dos assuntos se dava por intermédio das casas, seja por posição ou regência. Abu Ma’Shar primeiro se concentra nos significados essenciais do planeta, para então ver os lotes que ele afeta no mapa analisado, por regência ou aspectos. As casas ficam em segundo plano.

Veja o exemplo de Saturno como Regente do ano (ou seja, quando ele for regente da profecção do Ascendente). Para Abu Ma’Shar, quando Saturno estiver auspicioso no mapa natal e na revolução, a pessoa lucra com coisas antigas, com a construção da estrutura do seu local de residência, na construção de muros, poços, e com pessoas mais velhas de sua parentela ou não (a depender de estar domiciliado). Quando ele estiver “corrupto” nos dois mapas, além das coisas mencionadas trazerem prejuízo ao nativo, Abu Ma’Shar nos orienta a analisar os lotes e as Dodekatemorias que Saturno aspecta, pois ele indicará o “abandono de tais coisas”. Esses males seriam amenizados se a revolução solar for diurna, pois Saturno é um planeta diurno.

Por exemplo: supondo que Saturno seja o regente da profecção em determinado ano e esteja aspectando na Revolução Solar o lote da mãe. Se a união for “tensa” (quadratura, oposição ou conjunção) isso pode indica o abandono da mãe ou a deterioração do seu estado de saúde.

Outra coisa que é muito interessante seriam os aspectos que o regente do ano receberia dos outros planetas, especificando mais ainda seus assuntos. Isso aumenta as possibilidades de interpretação enormemente. A depender do aspecto que Saturno receba na Revolução e no mapa natal, ele pode se referir à durabilidade ou desestabilidade de um outro tema. Saturno bem posicionado, em aspecto com Vênus, indicaria um casamento firmado em sólidos alicerces e capaz de resistir a adversidades. Corrupto, porém, indica a desestabilização do matrimônio/relacionamento à época da Revolução. Em aspecto com Júpiter, indica a boa e segura manutenção das posses do indivíduo e dos seus filhos (significados essenciais de Júpiter). Em aspecto tenso e em corrupção, indicaria problemas com os mesmos.

Na Revolução Solar e no mapa natal, a corrupção de um planeta seria indicada não apenas pela debilidade essencial (detrimento ou queda), mas por outras coisas normalmente negligenciadas, como o séquito, domínio (vide artigos anteriores), retrogradação/movimento direto, etc.

Saturno é um planeta de representações muito abstratas e/ou específicas. Indica estabiidade e consolidação se estiver em bom estado, o contrário resultando em desestabilidade dos temas que ele testemunha no mapa. Para os indianos, Saturno indica o elemento Vata (Vento) que, de acordo com o Srimad Baghavatam, tem a função de ser perturbador, tirar as coisas do lugar. Embora Abu Ma’Shar seja um astrólogo do período árabe-medieval, é sabido que introduziu em sua obra alguns conceitos indianos, como a Navamsa e a Dwadasamsa. Não é necessário, porém, se estudar astrologia indiana para saber que Saturno pode ser altamente desestabilizador, entretanto é interessante perceber o que um texto da Índia diz a respeito. É certo Abu Ma’Shar foi influenciado pelo verdadeiro caldeirão cultural que Bagdá era à sua época, abrigando obras que se estendiam da Grécia até a Índia.

Os outros planetas possuem assuntos mais palpáveis, e os aspectos que eles receberiam indicariam dimensões e questões dentro dos seus temas essenciais. Vênus indicaria casamento, homens que auxiliam o nativo, a saber, ministros ou conselheiros e o envolvimento com luxos. Se aspectada por Júpiter nos dois tempos (a revolução e o mapa natal), indicaria questões financeiras circundando esses temas, ou mesmo filhos resultantes de uma união sexual.

Acho que a técnica de interpretação proposta por Abu Ma’Shar é mais fácil do que a de Morinus, pois se concentraria mais na figura da Revolução Solar. De fato, Abu ainda usa o mapa natal, só como um lastro do potencial até onde a Revolução pode chegar. Um planeta medíocre no mapa natal, elevado a status de superpotência pela Revolução, não pode produzir nada muito significativo. A questão é: em que consistiria essa “significância”. Talvez possamos obter alguma resposta analisando outros autores, alguns mesmo comtemporâneos. É o caso da Jyotisha.

A astrologia indiana bebe das fontes árabes quando vai estudar as revoluções solares. Criou uma escola que praticamente absorveu sem grandes alterações o conhecimento persa transmitido por Abu Ma’Shar e outros astrólogos da Pérsia e de Bagdá. Sabendo disso, temos uma outra fonte de estudo para entendermos qual seria a importância do mapa natal dentro do contexto das revoluções. Autores modernos como Ernst Wilhelm, que disponibiiza dois cursos em PDF sobre Varshapala (nome dado à Revolucão Solar na Índia e que representa “os frutos do ano”), usariam o mapa natal menos ainda e teriam plena confiança na figura anual. Mas como conciliar as duas visões? É possível entender porque enquanto um autor defende o uso conjugado do mapa natal, outros sequer o analisam?

Ernst defende que a análise da revolução é suficiente para dizer o que pode acontecer no ano, mesmo que o astrólogo ignore o mapa natal. Para ele, o último representaria o “teto” das manifestações, isto é, até onde a pessoa pode chegar na sua vida. Portanto, ao analisarmos a Revolução sem o mapa natal, apenas perderíamos a noção de intensidade do que os astros representariam ao nascimento, o que não afetaria muito a interpretação. Abu Ma’Shar cita o exemplo dos filhos.

Segundo ele, se a natividade não promete filhos, mas a revolução sim, isso seria um sinal de que o indivíduo adotaria. Para a maioria dos pais, um filho adotivo é o mesmo que a um filho biológico e, dizer o contrário, baseado e indicadores astrológicos, poderia ser até ofensivo. Se, no caso, ignorássemos o mapa natal deste indivíduo, apenas saberíamos que ele não pode ter filhos biológicos mas, ainda assim, acertaríamos o ano em que ele adotasse uma criança, se usássemos as técnicas revolucionais com sucesso.

Talvez Abu Ma’Shar não tenha logrado êxito em definir com palavras precisas um conceito que, hoje, seja mais claro, o de que o mapa natal indicaria coisas que o nativo não pode mudar em sua vida. O contexto social no qual ele nasce e os ditames de sua biologia são fatos que, ainda hoje, não são possíveis serem alterados, porém, uma vez tomando as rédeas da sua vida, o nativo poderia galgar (ou descer…) posições sociais, superar algumas limitações biológicas ou aumentá-las (no caso dos que se tornam deficientes físicos após acidentes). Essas alterações do que seria um estado primitivo do corpo físico, psíquico e social do indivíduo seriam indicadas pela Revolução Solar, mas teriam um teto, um limite, indicado pelo mapa natal.

Existem outros fatores que a pessoa é incapaz de mudar radicalmente. O mais notório deles seria o comportamento. Talvez por isso, ele seja a instância onde a astrologia, combalida pelas críticas, esteja entrincheirada até hoje, dependendo ela quase que unicamente do mapa natal.

Então agora sabemos que o mapa natal indicaria apenas que o indivíduo que você estuda não é uma coisa sem forma e plástica o bastante para mudar radicalmente de um ano ao outro e, por isso, as mudanças indicadas pela revolução sejam mais tímidas, se indicarem o contrário do mapa natal. Porém, o fato das mudanças serem tímidas não significa que elas inexistem.

 

3 Comments»

  Pedro Joffily wrote @

Muito bom esse post!
Uma dúvida: quando você diz, por exemplo, que Saturno faz aspecto na RS com o lote da mãe… esse lote é o radical ou o calculado pelas posições da RS?

  Rodolfo Veronese wrote @

Obrigado

Pelo que pude analisar da obra de Abu Ma´Shar, os aspectos são dentro da mesma carta. Assim, Saturno da RS fará aspecto com o lote da mãe na RS; Saturno natal com o lote natal.

Até o presente momento, eu creio, pelas minhas observações, que não há interaspectos entre as cartas, apenas conjunção. Também pudera, as coisas já são difíceis demais sem isso, imagina acrescentar mais coisas…

  Anônimo wrote @

olá Rodolfo, achei interessante essas reflexões… não entendi uma coisa: a personalidade não pode mudar radicalmente, mas as situações em cada RS sim? Por exemplo, ter plutão num ano na casa 7 da RS e no ano seguinte, sei lá, na 4 ou 3, perde a continuidade da significação ou a situação plutoniana se transfere? Katia


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