Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

A pesquisa de Gauquelin e a Astrologia Clássica

Michel Gauquelin foi um psicólogo francês que viveu no século XX e demonstrava grande interesse pela Astrologia. Como todo o estudioso da sua época, tinha de enquadrar esse interesse no paradigma cartesiano da ciência moderna. Para isso acontecer, realizou um dos mais famosos estudos estatísticos sobre astrologia do século XX, com um vasto banco de dados de mapas natais, categorizados por profissões e que contou como campo a França e a Bélgica.

Hoje em dia, os estudiosos da astrologia não tem um interesse tão grande por estatística como havia na segunda metade do século XX. De fato, a pesquisa quantitativa e com gráficos deu lugar à pesquisa qualitatita, mapa-a-mapa, mais rica e subjetiva.

Há muitas razões para se abandonar a velha pesquisa quantitativa de milhares de mapas; uma delas já foi dita: olhando-se mapa-a-mapa, percebe-se as sutilezas que se perderiam numa visão geral. Todavia, durante muito tempo, um dos poucos argumentos contra a pesquisa quantitativa se embasavam em opiniões mal-informadas dos estudos de Gauquelin.

Uma crítica a uma pesquisa estatística feita por alguém que não a estudou a fundo quase sempre é mal-formulada. Ou a pessoa se baseia na crítica de outrem, ou ela não tem subsídios para interpretar a pesquisa e o faz erroneamente. Afinal de contas, se você acha astrologia um meio fechado e obscuro, de entendimento difícil, é porque você não conheceu ainda a matemática, principalmente sua filha mais feia, a estatística.

Estatística é o verdadeiro conhecimento hermético. Poucos conseguem efetivamente acessá-la. Sem uma grande experiência de análise, um leigo que lê uma pesquisa tem de depender inteiramente de estatísticos para interpretá-la. Isso me lembra as minhas aulas de Epidemiologia na faculdade de medicina: meus professores tentavam me ensinar a analisar e criticar um estudo, com base na análise dos dados. Como é tradicional em universidades, você passa na disciplina sem ainda entendê-la…

A estatística recebe de alguns o carinhoso apelido de ‘Matemática de Satanás’, porque com ela você pode provar a tese que desejar: basta distorcer muito as conclusões e fazer com que cubos caibam em buracos na forma de triângulos. A ética dos autores influi em muito nos resultados.

Um estudo relativamente recente no British Medical Journal detona toda a reputação da Homeopatia. Entretanto, alguns críticos da pesquisa tinham subsídios suficientes para perceber que o estudo foi mal desenhado e contém erros. Para a maioria das pessoas que odeiam a homeopatia, porém, é suficiente saber que tem um estudo que prova que ela não funciona, sem contudo ter o trabalho de avaliá-lo com alguma imparcialidade. Assim caminha a humanidade e, contra a astrologia, nunca foi diferente. Tudo que fere a lógica cartesiana tende a sofrer essa perseguição – ou, melhor dizendo, negligência – na comunidade acadêmica.

Contrariando a noção de que a matemática é exata, a interpretação de dados estatísticos não. Duas pessoas diferentes podem discordar nas conclusões de um mesmo estudo. Existem estudos estatísticos cujas conclusões podem ser totalmente contrárias aos resultados. Às vezes, a coisa não é tão relativa assim, principalmente quando a conclusão soa absurda e visa enganar otários. Seria algo não tão absurdo como: se 1 + 2 = 3, logo 3 é menor que 1. Imagine a operação anterior, só que com cálculos muito mais complexos, que exigem treinamento e experiência. Um leigo seria incapaz de dizer que a conclusão seria absurda por não ter conhecimento suficiente para tal.

Na medicina, os autores de alguns estudos estatísticos chegam a conclusões erradas (e fazem os médicos acreditarem nisso) para provar que o remédio testado é eficiente: ou seja, tem um interesse financeiro por trás disso. Para as pesquisas que desejam provar a eficácia da astrologia, porém, o único interesse por trás que poderia prejudicar a imparcialidade da pesquisa seria o preconceito.

Se um pesquisador ateu chegasse à conclusão de que a astrologia é estatisticamente significativa, ele poderia concluir de que o universo não é tão caótico quanto se pensava. Poderia dar margem para o reconhecimento de uma inteligência ordenadora do universo, já elaborada na filosofia estóica. Em outras palavras: Deus. (Muito embora combinações ideológicas como um ateu crente em astrologia são plenamente possíveis).

Receio que muitos estudiosos contemporâneos a Gauquelin não o tenham levado a sério apenas pelo seu objeto de estudo. Sugiro que o leitor acesse este link e veja um contraponto às críticas dos estudos do francês.

No link em questão, todas as críticas mais usadas por astrólogos e céticos mal-informados dos estudos de Gauquelin são rebatidas. Cabe ao leitor usar seu senso crítico e decidir qual lado é o mais apropriado. O que mais me chamou atenção, porém, foram as seguintes conclusões:

“(…)Nem Gauquelin nem seus preconceitos em lidar com esses dados (o banco de dados de mapas) podem ser considerados a explicação para os achados com relação aos planetas e as profissões pois, como apontado acima, esses efeitos planetários foram replicados independentemente por outros (estudos de outros autores) (…)”

“(…)Note que Hone define angularidade de um modo diferente, tornando-a independente de casas (quadrantes); pois ela também considera uma zona em ambos os lados do Ascendente e do Meio do Céu, uma característica que pode ser encontrada nos escritos astrológicos mais antigos, como em Vettius Valens(…)”

Acho que esses foram os pontos do artigo que mais me chamaram atenção. Embora o restante do artigo seja interessante, despertou-me o interesse maior no que tange à minha área de atuação, que é a astrologia medieval e clássica.

Se o leitor acompanha o blogue, notará nos posts anteriores meu desinteresse em provar para a ciência contemporânea se astrologia funciona ou não. O estudo acima é mais importante para a minha prática do que para provar a outros de que a astrologia funciona.

Gauquelin descobriu que as áreas ao redor do Ascendente e do Meio do Céu são ocupadas com maior frequência por planetas que, tradicionalmente, tinham relação simbólica com a profissão do dono do mapa estudado. Assim, marte ao redor do ascendente e do meio do céu (e não dentro das casas 1 e 10, como se supunha) era comum em mapas de atletas. Descobriu-se a mesma correlação entre planetas e outras profissões.

Com algumas profissões, porém, nem sempre havia correlação simbólica tradicional evidente. Por exemplo, era comum encontrar Saturno ao redor do Ascendente ou do MC em mapas de cientistas – quando Saturno pouco tem a ver com cientistas (embora o temperamento Saturnino seja muito propício à investigação científica, pois é necessária MUITA paciência para se fazer uma pesquisa).

As pessoas que usavam o ‘tradicional’ sistema de casas quadrantes (que demarcavam o começo e o fim das 12 casas por medidas equatoriais e transpunham essas medidas no zodíaco, gerando casas de tamanhos diferentes) sentiram uma estranheza ao perceber que planetas nas Casas quadrantes 9 e 12 também definiriam profissão. Tradicionalmente, essas casas estariam cadentes, e indicariam pouca efetividade, deslocamentos e/ou assuntos maléficos para o nativo (nesse caso, a Casa 12 apenas). Entretanto, se usarmos o sistema de signos inteiros, presente em Valens e em outros autores tradicionais, Gauquelin não diz nada de diferente do que foi exposto pelos autores que o antecederam em quase dois mil anos de astrologia. Pois, de acordo com o sistema de signos inteiros, um planeta pode estar angular por signo, mesmo que esteja antes da cúspide do ângulo, como pode se ver no meu mapa:

O Sol declina do ângulo do Ascendente, mas ele está no primeiro signo. Marte declina do ângulo da Casa VII, mas ele está no sétimo signo. A experiência mostra que podemos usar ambos os sistemas de casas para representar assuntos na vida da pessoa, porém o que se constumava fazer era desprezar um sistema em detrimento do outro, quando na verdade se deveria incluir o sistema de signos inteiros, da mesma forma que os indianos o fazem.

Pela minha experiência, o Sol e Marte podem ser usados tanto para assuntos de casas quadrantes (Sol na 12 e marte na 6) quanto para signos inteiros (sol na 1 e marte na 6). A pesquisa de Gauquelin mostra claramente que o sistema de signos inteiros tem aplicabilidade tanto quanto o sistema de quadrantes.

2 Comments»

  Lívio Nakano M.D. wrote @

Rodolfo,

Sobre o trabalho do Gauqelin, eu havia pensado exatamente no que acabou de escrever, no esquema de “signos inteiros” – pena que não podemos acessar os dados originais, para checar esta possibilidade.

Sobre a estatística, ela per si é uma simples ferramenta, sujeita a bons e maus usuários.

No que diz respeito à realização de trabalhos distorcidos, mal formulados, com desfechos intermediários contradizendo desfechos definitivos, não randomizados e etc, etc, etc, assino embaixo.

Só preciso discordar, quando menciona a pobre estatística como parte do problema. Não – seu uso errado não a compromete como sistema eficiente de estudo e de análise científica.

A maioria dos trabalhos malformulados, traz algum detalhe crucial, que muitas vezes, nem é estatístico, mas sim, por exemplo, na seleção de critérios dos resultados.

Atribuir um desfecho intermediário (nível de colesterol, controle de pressão, espessura das placas das carótidas) valor semelhante ao de um desfecho clínicamente relevante (sobrevida livre de recidiva, mortalidade, AVC, IAM), é só uma das armadilhas mais comuns, na “popularização induzida de medicamentos novos”.

Estando os números tabulados, nos “resultados”, ainda que eventualmente, nos exija cálculos um pouco mais complexos, está ao alcance de qualquer um, pegar os dados, e re-calcular cada uma das variáveis.

A malandragem e má-fé, não depende de estatística, e até pode ser flagrada pelo uso criterioso do conhecimento de epidemiologia clínica.

Sim, eu acredito em Medicina Baseada em Evidências. Apesar de ter tidos bons e maus professores neste assunto, os bons professores ficaram como exemplo e lembrança, ainda mais em épocas de mercantilismo da nossa combalida profissão, e pelo sequestro de nossos congressos por parte dos patrocinadore$

  Rodolfo Veronese wrote @

Concordo com tudo que você disse. Acho que, mais adiante, eu precisaria editar esse artigo para enfatizar que a Estatística per se não é culpada das distorções, mas os homens por trás dela – e seus interesses espúrios.

Apesar da pesquisa qualitativa ser mais rica, acho que estamos perdendo uma boa dose de informação em não usar em pesquisa quantitativa.


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