Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Casas 11 e 12 e o termo ‘Daemon’

A astrologia do período clássico foi baseada nos preceitos filosóficos contemporâneos a ela e, por isso, quem tem uma formação filosófica clássica pode ter um grande subsídio no entendimento de alguns conceitos astrológicos. Um desses conceitos está implícito no termo ‘Daemon’, usado por Firmicus Maternus (astrólogo romano) para se referir às Casas 11 e 12.

Maternus chama as casas 11 e 12 de bônus daemon e malus daemon, respectivamente, combinando palavras latinas com gregas para descrever um conceito que, aos olhos dos leigos da pós-modernidade, soam vagos.

Felizmente, a Wikipedia um inglês nos fornece um bom resumo sobre o termo ‘daemon’, que vamos traduzir aqui, a título de facilidade para o leitor:

O uso por Homero das palavras theoí (θεοί: “deuses”) e daimonos (δαίμονες), sugerem que, enquanto distintos, eles seriam similares em natureza. Escritores mais tardios desenvolveram a distinção entre os dois. Em Cratylus (398b), Platão especula que a etimologia de daimôn/daēmones (δαίμονες: deidade/daêmon δαήμονες) provém de “conhecimento, saber”; contudo, é mais provável daiō (δαίω: dividir, distribuir destinos, atribuir)

No Simpósio de Platão, a sacerdotisa Diotima ensina Sócrates que o amor não é um deus, mas sim um “grande daemon” (202d). Ela continua a explicar que “tudo daemônico é entre o mortal e o divino” (202d-e), e ela descreve daemons como “interpretando e transportando coisas humanas aos deuses e coisas divinas aos homens; entreatos e sacrifícios de baixo, e ordenanças e recompensas de cima…” (202e).

Na Apologia de Sócrates, este afirmava ter um daimonion (literalmente, um “algo divino”) que freqüentemente o exortava – na forma de uma “voz” – contra erros, mas nunca o dizia o que fazer. Contudo, o Sócrates de Platão nunca se referiu ao daimonion como um daimōn; sempre foi um impessoal “algo” ou “sinal”. Sobre a acusação contra Sócrates em 399, Platão supôs “Sócrates erra porque ele não acredita nos deuses nos quais a cidade acreditava, mas apresenta outros seres daimônicos…”

Burkett nota que “um ser especial observa a cada indivíduo, um daimon que obteve a pessoa no seu nascimento como lote, é uma idéia que encontramos em Platão, indubitavelmente de uma tradição anterior. O dizer famoso e paradoxal de Heráclito já é direcionado contra essa concepção: “o caráter é para o homem seu daimon”

Outro nome que é comum para se referir à casa 11 é “Agathos daemon”, para o qual a Wikipedia em inglês tem a seguinte referência:

Apesar de ser pouco notado na mitologia grega (Pausanias conjecturava que o nome era um mero epíteto de Zeus), ele era proeminente na religião popular grega; era costumeiro beber ou derramar algumas gotas de vinho não-misturado em honra a ele em todo simpósio ou banquete formal. Na Paz de Aristófanes, quando a Guerra emboscou a Paz num abismo profundo, Hermes vem dar auxílio: “Agora, ó gregos! É o momento quando, livers das brigas e lutas, devemos resgatar a doce Eirene e tirá-la desse abismo… Esse é o momento para tomar um copo em nome de Agathos Daimon”. Um templo dedicado a ele situava-se no caminho de Megalopolis a Maenalus, na Arcádia.

Agathos Daimon era o esposo ou companheiro de Agathe Tyche (Τύχη Ἀγαθή “Boa Fortuna”; Latin, e dialeto, Agatha Agatha); [nota do tradutor: Agathe Tyche é um dos nomes da Casa 5, que faz oposição à 11] “Tyche nós conhecemos em Lebadéia, como a esposa de Agathos Daimon, o Bom ou Rico Espírito.” Sua numinosa presença pode ser representada na arte como uma serpente ou, mais concretamente, como um homem jovem carregando uma cornucópia e um cesto numa mão, e uma papoula e uma espiga de cereais na outra. O agathodaemon foi, mais tarde, adaptado em um daemon geral de fortuna, particular à abundância de boa comida e bebida de uma família

Além do Agatho Daemon, temos também o Cacos Daemon, outro epíteto da Casa 12:

Um Cacodaemon é um espírito maligno ou (no sentido moderno da palavra), um demônio. O antônimo de cacodaemon é agathosdaemon ou eudaemon, um bom espírito ou anjo. A palavra cacodaemon vem pelo latim do grego antigo κακοδαίμων (kakodaimōn), significando um espírito do mal, enquanto daimon poderia ser um espírito neutro no grego e Tychodaimon poderia ser um bom espírito.

Na psicologia, cacodemonia (ou cacodemomania) é uma forma de insanidade na qual o paciente acredita que ele está possuído por um espírito maligno.

A primeira ocorrência da palavra cacodemon data de 1398. Na obra Ricardo III, de Shakespeare, no Ato 1, Cena 3, A Rainha Margarete chama Ricardo de um ‘cacodemon’, pelos seus atos vis e manipulações.

Isso é apenas um pout-pourri do que podemos encontrar de literatura sobre esses termos; de qualquer forma, o termo daemon implica uma influência externa sobre o indivíduo, sendo essa influência etérea o bastante para que seja apenas deduzida como algo sobrenatural, sutil (mental) ou externo a nós.

Acreditando ou não em espíritos, a pessoa com planetas na 12 e na 11 sentem-se atingidas por influências externas a ela, seja no âmbito da saúde (doenças mentais ou físicas) ou no âmbito sóciocultural (pessoas, elementos da sociedade, instituições, etc). Assim como o que foi dito sobre a casa 6, apenas com um minucioso exame do mapa natal e da vida da pessoa é que poderemos saber em que instâncias atuam os planetas das casas 12 e 11. Da mesma forma, os planetas posicionados nessas casas podem agir em vários níveis, ou apenas em um deles.

Se a pessoa quer denominar isso como espíritos, compulsões, doenças psiquiátricas, anjos da guarda, dependerá das suas crenças. Um ateu diria “que estranho, sempre sou sabotado por mulheres no meu ambiente de trabalho”, enquanto uma pessoa com convicções religiosas diria que “o demônio toma a forma de mulher e vem me provar”. Tanto um quanto outro estariam descrevendo um planeta feminino na casa 12.

Mesmo que a pessoa seja responsável pelos elementos das casas 11 e 12, ela os personificará numa entidade, seja ela social (pessoas, objetos e instituições), psicológica (psicopatologia) ou nosológica (doença). Ainda no exemplo de um planeta feminino na casa 12: se ela acreditar em psicologia analítica, vai deduzir que o fato de mulheres sempre a sabotarem pode significar que algum elemento da sua personalidade não foi incorporado à consciência e sinaliza através desses eventos “externos”.

Assim, a Casa do “Bom Espírito” (casa 11) indicaria coisas que nos influenciam a fazer ou receber o bem. Em oposição a isso, a Casa do “Mal Espírito” (Casa 12) indicaria coisas que nos influenciam a fazer ou receber o mal. Vou deixar que o leitor apele para o senso comum quanto às definições de “bem” ou “mal”, porque não tenho tempo de definí-las aqui, mas Platão as explora na sua obra – nos relatos de Sócrates.

Para finalizar o artigo, resta fazer duas importantes distinções:

  • A Casa 11 não indica ações, mas a influência que nos leva a elas: pelo movimento diurno, os planetas da Casa 11 são levados à Casa 10, que indica as ações da pessoa.
  • A Casa 12 declina do ângulo do Ascendente, e portanto, representa coisas que nos influenciam a sair do nosso “eixo”. A pessoa perde o controle e tudo que a suporta, indicado pelo Ascendente. Ao contrário da casa 11, que não indica ações, a 12 sim, desde que essas tirem a pessoa do seu eixo referido. Essa distinção é importante para diferenciar a casa 6 da casa 12 (Pretendo elaborar mais um texto sobre essa distinção).

Para interpretarmos planetas nessas casas, devemos levar em conta todos os significados essenciais deles, e deduzir que qualquer coisa que eles signifiquem essencialmente podem influenciar o nativo de um modo bom (casa 11) ou ruim (casa 12). Eu sei que isso torna a interpretação muito vaga, mas normalmente o nativo automaticamente se referirá a um evento com as características do planeta. Abaixo, eu apresentaria alguns exemplos, comprovados pela experiência:

 

  • Mercúrio: amigos, pessoas efeminadas, escribas, administradores, cartas, correspondências, livros, o sistema tegumentar (pele).
  • Vênus: Parceiras (principalmente para homens), veículos, relacionamentos, a mãe (em mapas diurnos), professores, vitalidade de um modo geral.
  • Saturno: pessoas mais pobres, pessoas mais velhas, o passado, doenças, o pai (em mapas noturnos), ligamentos e tecido conjuntivo.
  • Marte: irmãos, militares, trabalhadores, imóveis, o sistema nervoso.
  • Júpiter: o marido (segundo os indianos), filhos, posses em geral, religiões, gurus, filosofias, o sistema endócrino.
  • Lua: A mãe (em mapas noturnos principalmente), o corpo e a mente do nativo de um modo geral, sistema cardiovascular.
  • Sol: O pai (em mapas noturnos), figuras de autoridade, ossos e coração.

Alguns exemplos aleatórios:

  • Sol na casa 12: o pai pode ser uma influência ruim para a pessoa, que a tira do seu eixo e do seu conforto. Não significa que o pai é um inimigo, mas ele dá maus conselhos. Tendência a fraturas.
  • Mercúrio na Casa 12: amigos orientam mal o nativo ou ele é sabotado pelos amigos (isso já aconteceu mais de uma vez comigo). Enganos em documentações podem prejudicar a pessoa.
  • Vênus na Casa 11: a mulher e/ou a mãe do nativo dá a ele bons conselhos, ou um veículo o leva a fazer boas ações, ou a ajuda vem de mulheres ou da mãe (principalmente em mapas diurnos). Do modo mais simples, a pessoa pode se beneficiar do carro de outra, sem ter que comprá-lo.

 

 

 

1 Comment»

  Márcio wrote @

Puxa! Obrigado por esse post!

Minha carta natal é diurna, com o Sol em exílio na casa 12, regendo a 6 e em quadratura com Saturno e Marte conjuntos em Escorpião na 9, que fazem trígono ao ASC em Peixes. Não sei se é por isso, mas o fato é que eu tenho um TOC forte com obsessões que envolvem idéias de contaminação com “maus fluidos” que viriam de pessoas, na maior parte das vezes desconhecidas, que vejo na rua. É uma sensação forte de que algo ruim da pessoa, que não sei bem o que é, passaria pra mim, numa espécie de mágica ou maldição. Um outro astrólogo, também de viés tradicional, disse que isso é mais coisa de uma outra quadratura que eu tenho, envolvendo a Lua aos 29º29' de Áries na 2 e Mercúrio aos 29º de Capricórnio na 11. Bom… eu não sei. Eu ainda estou aprendendo astrologia.

Estou me tratando com medicações e recitando mantras planetários. rs


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