Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

O Código Jaimini

Até onde eu pude conhecer da astrologia indiana, posso dizer que há cinco escolas notórias:

  1. Parasara
  2. Jaimini
  3. Bhrigu
  4. Nadi
  5. Tajika
Cada uma delas tem muitas coisas em comum com a astrologia ocidental, embora não suficientemente para concluirmos que há apenas uma astrologia no mundo e que precisamos nos unir numa fraternidade universal de astrólogos…

Dentre as cinco astrologias acima, estou me dedicando no momento mais à segunda, Jaimini.

Não é muito difícil conseguir na internet os ‘Jaimini Upadesa Sutras‘ ou os ‘Sutras Iniciatórios de Jaimini’. Só que o leitor não terá, decerto, a dimensão da dificuldade que é traduzir Jaimini do sânscrito para uma língua moderna.

O Sânscrito é uma língua ‘morta’, tal qual o latim, porém seu estudo é continuado devido a razões religiosas e cerimoniais, pois é a língua viva dos vedas, dos deuses, da espiritualidade indiana. Há quem diga que o Sânscrito nunca foi falado nas ruas, sendo uma língua dos Brâmanes, a casta letrada, mais culta. Seu alfabeto – na verdade um silabário – é chamado “Devanagari”, cuja tradução plausível pode ser ‘cidade dos deuses’.

Saber Sânscrito, portanto, também será importante para quem deseja desbravar a astrologia indiana seriamente. Caso contrário, dependerá das opiniões de terceiros sobre a interpretação de um texto.

O texto de Jaimini talvez seja o mais fácil de ser traduzido. Daí a ser entendido é outra coisa diametralmente oposta… As frases são concisas, portanto de tradução fácil. O mistério reside justamente nessa concisão: Menos palavras, menos explicação, menos clareza, esta portanto se adquirirá com o tempo…

Apesar de ser um texto ‘lacônico’, Jaimini deixou pistas de como devemos entendê-lo dentro do próprio texto. Soma-se a isso que o autor possui um padrão de conexão das frases que possui poucas variações. É assim que linguistas preferem acreditar, caso contrário a coisa será mais difícil…

Na tradução de Jaimini feita por astrólogos, criou-se uma interdependência entra a prática astrológica e a tradução. Ao se estudar um sutra (frase), leva-se anos para entender seu sentido original, que é corroborado ou não pela análise dos mapas natais. Ao se optar por um determinado sentido, o astrólogo o testa várias vezes até que ele perceba que realmente corresponde à realidade; não havendo isso, retorna-se ao papel novamente…


Além do texto ser conciso, Jaimini usa um código para definir os signos e as casas. O próprio autor explicita isso no texto: não é delírio psicótico de nenhum tradutor nem ficção como no Código da Vinci…

Nesse código, a palavra é numerologicamente analisada, se convertendo num número que é dividido por 12. O número resultante é a casa ou signo do mapa. A decodificação é feita pelo sistema numerológico katapayadi, que você pode ver no blogue nas postagens desse ano.

Ainda assim, a decodificação não resolve todos os problemas. Por exemplo, quando é que o autor se refere a um signo, e quando é que se refere a uma casa? veja no exemplo abaixo: duas traduções para a mesma frase:

िबयचापयोिवशर् षे ने

kriyacāpayorviśeṣena.

Tradução de Sanjay Rath: se ketu (nodo sul) estiver na 4ª ou 12ª casas a partir do karakamsha (Posição do planeta com o maior número de graus no mapa natal porém visto na Navamsha), a emancipação final será garantida.

Tradução de Ernst Wilhelm: (…) em Peixes (12º signo) e Câncer (4º signo), particularmente.

O trecho acima quer dizer o seguinte: se essa configuração astrológica ocorrer, a pessoa atingiu um patamar de evolução tal que ao morrer não reencarnará mais. Para Sanjay, isso pode ser representado pelaa configuração do nodo sul na casa 4 ou 12 do planeta que rege a alma (Atmakaraka, aqui chamado de Karakamsha); enquanto Ernst traduz a mesma configuração como sendo o nodo sul no mesmo signo do planeta da alma, sendo esse signo Câncer ou Peixes.

Não vamos aqui questionar a validade dessa afirmação, pois o exemplo foi citado apenas para percebermos como a mesma frase pode ser traduzida de dois modos diferentes: enquanto Sanjay considerou as casas, Ernst traduziu como signos! Tudo isso porque as palavras kriya e cāpayoh geram um número cada uma, 12 e 4, respectivamente. Esse número pode se referir tanto a um signo quanto a uma casa. Dependerá do contexto, que no caso se demonstra ambíguo, pois cada tradutor escolheu um viés diferente.


Jaimini é único e genial. Mesmo com algumas passagens ambíguas, é no consenso entre os diferentes tradutores que vemos o poder dessa técnica, ao mesmo tempo simples.

Já escrevi antes aqui que Parasara e Jaimini tem muitas coisas em comum e por isso não poderiam ser considerados escolas diferentes. Bem, não sou uma autoridade do sânscrito mas hoje já conheço gente que diz o contrário e que me fez pensar no que disse.

De fato, Parasara contém em seu texto algumas coisas de Jaimini, sendo essa a evidência que suporta a minha afirmação anterior, porém Ernst Wilhelm, meu professor atual de Astrologia Jyotisha e conhecedor do sânscrito, estudou anos e anos Jaimini e concluiu algumas coisas discordantes. Seu ponto de vista vale a pena, pois Ernst criou o curso de Astrologia Jaimini mais acessível que já tive o prazer de conhecer.

As conclusões de Ernst são baseadas na sua experiência particular e em evidências textuais. Segundo ele, provavelmente o trecho do texto de Parasara que lembra Jaimini na verdade foi uma inclusão tardia de algum escriba.

Apesar do texto de Parasara ser mais antigo do que Jaimini, somente no século XIX é que ele foi transcrito para o papel. Logo, está suscetível a inclusões astrológicas da antiguidade até o século XIX da nossa era que podem não corresponder ao texto original.

De acordo com Ernst, escribas que não se preocupavam em separar os conteúdos por autores podem ter incluído no mesmo texto atribuído a Parasara trechos significativos dos sutras de Jaimini, sob a lógica de ajuntar técnicas que funcionam num mesmo manuscrito, da mesma forma que fazemos em nossos cadernos pessoais.

Os sutras originais são muito mais concisos do que os encontrados em Parasara. Em outras palavras: encontramos em Parasara um Jaimini decodificado, no qual muitos autores se inspiraram para traduzir o Jaimini original, através de referências cruzadas.

Aparentemente mais enxuto e com um estilo peculiar, o texto supostamente original de Parasara se diferencia pela exacerbada matematização da astrologia. As técnicas de Jaimini não requerem matematização: com apenas uma olhadela, já sabemos a força de um planeta e podemos compará-la com a força de outros afim de escolhermos o mais influente em determinado assunto.

Em Parasara nós vemos um Jaimini decodificado. Em outras palavras: enquanto nós temos de sofrer para decodificarmos, o escriba que registrou a obra de Parasara incluiu nessa obra seu entendimento dos sutras codificados de Jaimini. Só que esse entendimento, na experiência de Ernst, é errôneo, já que seus achados na prática não o corroboram.

Antes do ‘código da Vinci’, de Dan Brown, há o Código Jaimini, que ao ser corretamente desvendado, pode revelar técnicas surpreendentemente simples (mas poderosas) de interpretação do mapa natal.

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