Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Sobre as Grandes Conjunções (Júpiter-Saturno) – parte 1

A introdução de uma teoria das Conjunções Júpiter-Saturno na Astrologia não é Ptolomaica. Veio provavelmente do império Sassânico, e é por isso que não vemos nada do gênero até os autores persas, como Abu Ma’shar e Masha’Allah.
Em outras palavras: Enquanto Ptolomeu inicia seus trabalhos no segundo século depois de Cristo, só a partir do século VII d.C. que aparecem os primeiros registros dessa teoria.
Do que ela trata?
A teoria das Grandes Conjunções fornece um modelo para entendermos as grandes mudanças da história da humanidade, nos campos ideológico, político e econômico.

A teoria das Conjunções Júpiter-Saturno pode representar:
  • O surgimento de religiões influentes como o Cristianismo e o Islamismo (esta última com inúmeros exemplos da literatura, pois os autores medievais influentes eram árabes):
  • O surgimento de nações poderosas, ou o fortalecimento de uma nação;
  • A ascensão de uma nova dinastia, que toma o poder de um determinado país e ganha força.
Mas nem tudo são flores…
Problemas técnicos
O modo chegamos a isso, porém, esbarra em inúmeras complicações.
Os problemas residem no método de cálculo dessas conjunções.
Criou-se uma discussão em torno da problemática do movimento médio dos planetas Júpiter e Saturno versus a posição real dos mesmos.

“movimento médio”, como o nome diz, é a velocidade média do planeta.

Para ilustrar isso: Um carro pode viajar a 20 km por hora em 2 horas (percorrendo 40km), depois viajar a 40 km/h em mais 3 horas (percorreu 120 km). A velocidade média será o quanto ele percorreu sobre o período de tempo, portanto 120km + 40km dividido por 5h, igual a 32 km/h.
Se o carro fosse um planeta, os astrólogos podem usar o movimento médio para saber em que altura da estrada ( isto é, em que signo) ele estará, mas isso vai diferir do movimento real do carro, isto é, o quanto ele percorreu.
No exemplo acima, em uma hora, com velocidade média, o carro percorreria 32 km, enquanto, pelo movimento real, o carro percorreu apenas 20 km na primeira hora!
Em outras palavras: pelo movimento médio, a conjunção entre Júpiter e Saturno pode diferir da posição real deles.

Entretanto, alguns estudiosos da Astrologia Medieval, como Steven Birchfield, afirmam que os astrólogos se baseavam no movimento médio de Júpiter e Saturno para escolher a conjunção mais significativa.
Não temos escolha. Tenho estudado a obra de Al-Battani, um astrólogo árabe, e infelizmente todas as conjunções listadas por ele tem o movimento médio coincidindo com a conjunção real. Ou seja: usando as conjunções do nascimento do Islã, não podemos inferir qual método de cálculo é o correto, pois ambos os tipos coincidem!
Por isso que a melhor maneira até agora é ir por esse viés:

A conjunção média que coincidir com a posição real é dita importante, uma vez que as outras aparentemente não eram consideradas.

Porém, à medida em que nos afastamos do nascimento do Islã, o movimento médio deixa de coincidir com o movimento real dos planetas, e as coincidências entre o movimento médio e o real persistem, mas diminuem.
Talvez a coincidência do real com o imaginário (mov. médio) seja algo criado pelos astrólogos islâmicos: talvez eles alinhassem o movimento médio dos planetas com o movimento real na altura da criação do Islã para justificar a importância do nascimento do seu profeta, já que a posição média é algo que não existe, sendo apenas uma inferência do raciocínio humano.
Essa é a principal dificuldade no estudo das grandes conjunções, e a resposta para esse dilema tem sido escolher a coincidência da média com o real.
Mas a pergunta que não quer calar:
Para que esse tal de ‘movimento médio’?
O movimento médio é um facilitador dos cálculos. Em tempos sem computador e usando tábuas astronômicas, a melhor maneira de se saber sobre a época em que uma determinada conjunção cairia era através dele.
Mas ele não era fruto da ignorância dos astrólogos, pois já naquela época, as tábuas astronômicas chegavam a resultados parecidos com os nossos, efemérides da NASA.
Por já terem um grau avançado de precisão astronômica, os astrólogos já sabiam da irregularidade do céu, então o movimento médio deveria ter outra importância. Sem ele, esse belo desenho celeste não seria possível:

É pelo mov. médio que eu chego a aproximação do intervalo de 20 anos entre duas conjunções; ainda por ele, o mesmo elemento (triplicidade) tende a receber uma série de conjunções por 240 anos, quando ela passa à triplicidade seguinte.
A mudança de triplicidade, como veremos nos próximos posts, era algo muito importante, e os astrólogos precisavam do movimento médio para saberem quando isso aconteceria, uma vez que o movimento real tornava os padrões celestes menos regulares.
Pelo movimento real, a mudança de triplicidade poderia ocorrer antes do fim do período de 240 anos, porém logo na conjunção seguinte o padrão voltaria à triplicidade anterior.

Por exemplo, pela tabela acima, em 27 de julho de 769 d.C. houve uma conjunção real na Triplicidade de Fogo (Leão), que se seguiu à triplicidade de água, Escorpião, em 10 de dezembro de 749 d.C.
Ainda analisando a figura, a conjunção seguinte àquela ocorrida em Leão retomou à triplicidade anterior, se concretizando em Peixes no dia 18 de fevereiro de 789.
Finalmente, a triplicidade de fogo veio para ficar na conjunção de Sagitário, em outubro de 809.
Pelo movimento médio, a conjunção real em Leão seria menos importante do que a conjunção em Sagitário, porque esta ocorreu tanto na realidade quanto em movimento médio. Soma-se a isso que Sagitário ocorre numa mudança de triplicidade, e devido a isso pode mostrar o nascimento de profetas, de uma religião, teoria ou nova dinastia.
É por isso que nós, humildemente, consideramos o uso do movimento médio pelos astrólogos medievais como algo proposital, mais do que um cálculo seguido à risca e com a boa fé de que fosse fidedigno.
Há um argumento filosófico importante, e esquecido até agora. O céu era visto como algo perfeito e incorruptível, um pressuposto Aristotélico que valorizava a regularidade das formas e a inteireza dos números.
O movimento médio indicava a hora certa de se escolher algo significativo
No próximo post da série, vamos falar do que é preciso para interpretar as conjunções.

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