Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Vimshottari Dasha – a técnica indiana mais comum e suas dificuldades

Você pode encontrar várias referências na internet sobre os famosos ‘períodos planetários’ indianos, chamados de Vimshottari Dashas. Eu não vou falar o óbvio aqui, acho cansativo ‘chover no molhado’. Eu noto que as pessoas gostam de escrever o mesmo tipo de informação sem perceberem que estão sendo repetitivas e suscitando ódio nos leitores, após eles terem entrado em várias páginas via Google que dizem a mesmíssima coisa, com sinonímias… Acho que seria mais proveitoso descrever a reação de um ocidental quando se depara com esse sistema.
Ao testar esse sistema pela primeira vez, eu poderia resumir a reação de um ocidental com a palavra… Frustração. Já vi gente experiente se frustrando horrores, não somente com os períodos planetários indianos, mas com qualquer técnica astrológica com mais de mil anos…
É preciso ‘abaixar a crista’ do nosso orgulho ocidental e admitir que não podemos usar essas técnicas, pois elas partem do princípio de que a pessoa aprendeu a interpretar profunda e sistematicamente o mapa natal! Nós partimos para a previsão sem fazer uma interpretação natal minimamente decente! Assim, essas técnicas NUNCA funcionarão…
Parashara e outros autores referenciais dizem que o Vimshottari Dasha é a melhor técnica preditiva para ser usada no Kali Yuga. No entanto, é muito comum a pessoa não conseguir entender como ela funciona. Eu mesmo, por diversas vezes, não consegui usá-la nem para entender os eventos que já aconteceram! E ainda dizem por aí que interpretar eventos após o fato é moleza…
Uma técnica que não funciona nem para entender o que já aconteceu, por si só, possui demérito suficiente para ser descartada. No entanto, será que os indianos são tão persistentes assim, há séculos usando uma coisa que não funciona? Obviamente, você não precisou flexionar muito seus músculos cerebrais para concluir que os indianos usam essa técnica de modos diferentes e, acima de tudo, eles sabem interpretar o mapa natal porque lá há uma cultura enraizada da Astrologia há séculos.
Decerto que os indianos a usam de um modo diferente. Caso contrário, eles teriam as mesmas decepções que nós. O que é mais engraçado é que não há diretrizes muito claras nos livros mais populares de astrologia jyotisha sobre como usar essa técnica, que sem dúvida é a mais popular da Índia. As coisas mais acessíveis acabam por se tornar as mais misteriosas – os trânsitos, por exemplo. Será que esse mistério todo não passa de um ‘segredo comercial’?
Existe, porém, um livro que me chamou atenção quanto ao modo sistemático de apresentar o modus operandi do Vimshottari Dasha. Esse livro pode ser conseguido pelo google, em pdf, e o melhor – ele ensina junto os fundamentos da astrologia indiana. Trata-se de “How to time events”, de Dinesh Mathur.
Eu recomendo os dois livros disponíveis desse autor na net. Possuem uma abordagem ampla de vários conceitos de astrologia indiana. À primeira vista, o livro que indiquei acima apresenta o que seria uma nova maneira de usar o Vimshottari Dasha, mas não se engane: após ler o livro pela terceira vez, receio que o autor apenas tenha percebido as engrenagens que permeiam as entranhas dessa técnica milenar – engrenagens essas que não eram reveladas pelos outros autores, mas que eram por eles utilizadas, como se todos soubessem o caminho das pedras para atravessar um rio na escuridão sem usar barco.
A técnica dele pode ser resumida em um parágrafo, mas não se engane: ela é demasiadamente complexa na prática. Como tudo na vida, a complexidade se dissolve com o tempo de experiência. Também o tempo dissolve a sensação de que o autor sugere algo diferente de outros autores que reverencio, como Sanjay Rath. À medida em que se lê os textos de ambos, os princípios começam a se revelar em qualquer mapa, de qualquer interpretação, de qualquer autor de Astrologia Jyotisha. Atualmente, eu a recomendo a qualquer um que desejar aprender jyotisha e a prever com precisão os eventos, sem que antes eu possa resumí-la.
Para Dinesh, qualquer evento que ocorra será ativado no período de um planeta que estiver associado de maneira forte a todos os principais pontos que representam o evento. Por exemplo: o casamento do nativo ocorrerá no dasha do planeta que tiver associação com os três locais abaixo, no mapa natal:
  • Casa 7 a partir do Ascendente
  • Casa 7 a partir de Vênus (a significadora de casamento dos homens)
  • Casa 7 a partir do Arudha lagna (um ascendente especial e muito útil que já foi citado aqui no blogue)
Perceba que essa técnica de ‘determinação tríplice’ explica muitas decepções dos ocidentais. Muitos acham que o casamento da pessoa ocorrerá no dasha do planeta regente da casa 7 a partir do ascendente, porém perceba o quão parcial isso pode ser; posto que, de nada adianta concluir que o regente da casa 7 a partir do ascendente será o regente do período em que ocorrerá o casamento se ele não estiver configurado com os outros dois locais acima no mapa natal!
Se nenhum planeta se configurar com todos os locais acima, então o autor nos aconselha a usar os mapas que tenham relação com o assunto e fazer mais ou menos o mesmo raciocínio acima. Em se tratando de casamento, o mapa divisional mais adequado é a ‘Navamsa’ (D9). Aqui entra, a meu ver, a grande distinção desse autor para outros que reverencio, como Narasimha Rao e Sanjay Rath: Dinesh dá mais importância ao mapa natal e relega a um papel mais secundário os famosos ‘mapas divisionais’. Eu aconselho da mesma forma que Dinesh, porque creio que seja preciso extrair a última gota de informação possível do mapa natal antes de sair delineando os mapas divisionais.
No meu caso, o meu casamento ocorreu no dasa do sol. Este não tem relação muito forte com nenhuma das casas 7 acima mencionadas no mapa natal. Aliás, não há nenhum planeta que tenha forte associação com as casas. O meu caso, então, se enquadra nas ‘exceções’, requerendo o uso do mapa divisional que tenha relação com casamento – a Navamsa. Nela, o Sol rege a Casa 7 e faz recepção mútua com o karaka para casamento (Vênus, que está no signo do Sol enquanto este se encontra em libra) e com Saturno, regente do Ascendente da Navamsa (Saturno em Leão, Sol na sua exaltação, Libra). A combinação casa 1 + casa 7 (intermediada pelos seus regentes e pelo karaka para matrimônio Vênus) indica o nativo se encontrando com o matrimônio e isso explica porque o sol indica casamento.
Apesar do primeiro caso com o qual me deparei indicar a exceção, muitos outros casos apresentados pelo autor e por mim estudados podem ser respondidos pela técnica do autor, somente com o mapa natal.
Eu não defendo nenhum preceito radical como o de ‘não se usar mapas divisionais na interpretação’, mas gosto de primar pela simplicidade de somente se usar o mapa natal a priori. O que não pode acontecer – coisa que se torna muito comum no texto de vários autores – é usar menos elementos técnicos e aumentar o grau de complexidade da interpretação do mapa natal! Nesse caso, o que seria mais simples acaba por ficar duas vezes mais complicado.
Admito que em muitos casos, os mapas divisionais sejam muito mais claros em dizer o que está acontecendo do que a simples análise isolada do mapa natal… Diante disso, usar somente o mapa natal com a técnica de mathur e esquecer a segunda parte – a de se usar os mapas divisionais em caso de confusão – é uma simplificação que tende a aumentar a complexidade da interpretação para se tentar encaixar os eventos às configurações, tal qual encaixar um quadrado num buraco com a forma triangular!
Se o leitor não for radical e estiver perdido no meio de preceitos imprecisos de interpretação do Vimshottari Dasha, eu recomendo efusivamente esse livro.

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