Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Errando nos cálculos (para ser mais humano)

A Astrologia reflete uma experiência humana no céu estrelado. Acredita-se que o céu deve ser o mais fidedigno possível ao que se vê, mas alguns astrólogos querem retroceder no tempo e usar métodos de cálculo menos precisos – e por razões mais interessantes do que simplesmente o “fetiche” de gostar de métodos antigos.

Dentro de algumas semanas, o grande astrólogo e programador Narasimha Rao vai publicar a nova versão do seu poderosíssimo software de Astrologia Védica chamado Jagannatha Hora. Na versão que virá – a 7.5 – ele trará ao programa o que será uma revolução dentro de todas as astrologias que se praticam na atualidade: ao invés de usar as efemérides mega precisas que se baseiam nos telescópios da NASA, ele usará os métodos de cálculo astronômico do tratado indiano de Astrologia do século VI (aproximadamente) chamado Surya Siddantha.

Sejamos francos e sóbrios: ninguém faz um esforço homérico em vão. Além de possivelmente cobrar uma fortuna pelo software (até a versão 7.4, o download era gratuito. Agora, provavelmente não deve ser…), Narasimha teve boas experiências com esses métodos antigos. Inicialmente, ele testou a interpretação dos mapas calculados com o método arcaico do Surya Siddantha. Qual não foi a sua surpresa… Nos fóruns que participa, vê-se que ele está empolgadinho porque os mapas calculados pelo SS são muito mais claros para descrever a vida das pessoas e, melhor ainda: as técnicas preditivas eram mais fáceis de serem interpretadas e eram muito mais precisas! Com essa atitude, ele deu dois milênios de passos para trás porque quer avançar anos luz à frente.

Ao usarmos cálculos antigos, as posições dos planetas tendem a não corresponder exatamente àquilo que se vê no céu. Por que então retroceder na técnica, se isso leva ao erro? Narasimha descobriu uma razão prática, que ele justifica metafisicamente nos fóruns. Pois bem, espero que a razão prática seja descoberta por mim também mas, enquanto ele não lança o update do programa com os cálculos do Surya Siddantha, eu prefiro uma análise sob um viés filosófico e histórico. Isto porque não é só Narasimha que defende um retrocesso nos cálculos e na maneira de se ver a matemática. Robert Schmidt, professor de filosofia e tradutor dos textos astrológicos helênicos, também nos aconselha reconsiderar o modo como lidamos com a matemática dentro da astronomia de posição, tão importante para a astrologia.

Alguns astrólogos consideram que o movimento dos planetas e os seus ciclos devem ser regulares para representar a experiência humana, mas a regularidade do movimento planetário não ocorre na natureza: o que se tem é uma aproximação do movimento dos planetas com números de ciclos criados pelo homem.

Essa aproximação sempre foi grosseira, e durante muito tempo os historiadores consideravam o erro uma questão de imprecisão matemática, porém já não há poucos anos desde que algumas correntes dentro da história das ciências e também dentro da astrologia consideram que esse erro era proposital, uma escolha de se priorizar a beleza dos números regulares, dos ciclos, em detrimento de uma natureza imperfeita, que possuía ciclos mas que, ao serem mensurados, eram irregulares. Para entendermos isso, é interessante recorrer às idéias de Platão.

Serei bem simplório devido ao pequeno espaço de um post (que me impede de construir algo mais elaborado, porém menos irritante ao estudante sério de filosofia). A corrente filosófica que predominava no pensamento astrológico era o platonismo. Essa escola filosófica considerava as idéias perfeitas e a realidade imperfeita, porém esta sempre se esgueirava para alcançar os modelos daquela. Um objeto, antes de ser materializado, era perfeito enquanto idéia, mas quando era construído, mostrava suas imperfeições. Havia sempre essa relação da coisa com sua idéia, aquela imperfeita, tentando chegar o mais próximo possível desta.

Podemos encaixar os planetas dentro desse modelo de uma forma muito curiosa. Hoje em dia, seria normal considerar o planeta um objeto como outro qualquer – imperfeito e que se esforça para caber dentro de uma idéia, mas os antigos não viam o planeta enquanto corpo! Apesar do planeta ser uma coisa materializada, ele não era percebido enquanto corpo, mas sim enquanto idéia.

A justificativa para entender essa afirmativa reside no fato dos planetas terem um ciclo que sob vários aspectos era assombrosamente regular. Um ciclo que não tinha início, nem fim, que nunca fora interrompido. Um planeta nunca saiu do caminho que percorre nos céus, nunca mudou do espectro de cores que costuma ter, nunca mudou de velocidade além daquela que costuma ter, nunca parou e retrogradou além do local em que fica em relação ao sol quando costuma fazer isso. Essas coisas nunca mudaram, sempre assistiu a humanidade nascendo, crescendo e morrendo.

Um planeta só podia ser uma idéia porque demonstra regularidade nos seus ciclos e porque estes nunca mudam. A eternidade era algo belo, e os planetas eram imortais! São ideiais!

Como você pode perceber, os planetas pareciam aos olhos dos antigos seres imortais. Eles não sofriam corrupção e se estinguiam, como qualquer coisa do mundo sublunar. Eles não pareciam ter uma forma tosca como tudo aquilo que se tinha debaixo do céu. Os antigos não tinham um telescópio da NASA ou uma sonda espacial para ver que a Lua é cheia de crateras. Por incrível que pareça, essa visão dos planetas enquanto matéria não é algo historicamente velho. Os planetas eram idéias, perfeitas, que impingiam suas influências nos quatro elementos (fogo, terra, ar e água) no mundo sublunar (o mundo onde vivemos).

O mundo sublunar é repleto de coisas imperfeitas (objetos e seres), formados pelos quatro elementos. Essas coisas são passíveis de corrupção e destruição, e enquanto coisas materiais, se espelham nas idéias dos planetas que as correspondem. A maneira de sabermos qual planeta influencia qual coisa é dada pela natureza dessa e sua correlação com a natureza do planeta. Uma faca é regida por marte porque ela corta e é de ferro, sendo esses atributos oriundos do arquétipo marcial. O ser humano, na angústia de saber qual estrela regia sua natividade, em qual idéia se baseava sua existência, encontra essas respostas na sua carta natal…

O grande problema é que os antigos não eram tão preocupados com precisão. Os movimentos dos planetas, de fato, são extremamente regulares, mas se usarmos unidades de tempo cada vez menores e constantes, essa regularidade se torna cada vez mais grosseira, mas isso não era tão importante quanto se tornou nos séculos seguintes! Tudo isso culminou hoje com todos os programas de Astrologia usando métodos de cálculo astronômico ultra precisos!

A preocupação exacerbada com precisão suscita uma questão essencial para a Astrologia: será que a precisão afasta a Astrologia do que é mais humano nela, que são a beleza dos ciclos regulares e dos planetas enquanto entidades regentes da vida terrena, historicamente diferenciadas dos corpos celestes que se tornariam após anos de revoluções astronômicas de Galileu, Copérnico e Kepler?

O que seria um retrocesso, na verdade é uma nova maneira de relacionar a Astrologia às ciências exatas: deixar de valorizar precisão em detrimento de uma regularidade dos ciclos astronômicos, em prol da sincronicidade, e do conceito de beleza e simetria que durante muito tempo representou como a ciência da antiguidade lidava com a matemática na mensuração de sistemas naturais, como a Astronomia.

Este novo método de cálculo do Sr. Narasimha se baseia na crença de que a Astrologia verdadeiramente não reflete o céu propriamente dito, mas a experiência humana, sendo essa experiência melhor sincronizada pelos movimentos médios dos planetas e seus ciclos numéricos perfeitos, que não encontram correspondência com os cálculos das posições dos planetas pelas efemérides mais modernas.

Em outras palavras: esses autores acreditam que a Astrologia se baseia grosseiramente no que acontece no céu, mas na verdade os seus ciclos devem refletir os números embutidos na alma humana. Nessa projeção grosseira da realidade interna com o exterior celeste, há muitas aproximações e arredondamentos. Esse céu estrelado que observamos, pode ser tão humano a ponto de ser baseado num ritmo tão regular e simétrico que não corresponda àquilo que se vê no que é matematicamente preciso, que pode ser encontrado nas efemérides da NASA, as mais comuns na maioria dos programas de Astrologia.

Hoje em dia, a idéia de precisão matemático-astronômica está intimamente aderida aos pressupostos dos astrólogos. Uma sugestão dessa monta – de se usar uma técnica de cálculo arcaica – não encontrará boa receptividade em quem não contextualizar a astrologia que pratica. Se você for um astrólogo védico tradicional, talvez se beneficiará com o Surya Siddantha. Eu fico pensando em quem for Astrólogo medieval e querer converter a longitude dos planetas achada pelo SS para o zodíaco tropical. Essa sugestão pode ser interessante porque os astrólogos medievais tinham seus algoritmos de astronomia de posição derivados em grande parte dos indianos.

5 Comments»

  Anonymous wrote @

obrigado.f

  Denise G Dinigre wrote @

Ho! Que bom poder rever a própria AStrologia! Grata! CNA-Ba

  Guy Taillade wrote @

Não vou fazer um longo comentário. Só quero dizer que compartilho totalmente esta posição e entendo perfeitamente esta vontade de voltar a um padrão matemático seguindo, podemos dizer o ponto de vista da quantidade descontínua, exposta nos estudos de René Guénon (ver em particular suas Notas sobre a produção dos números, texto traduzido por marcos Monteiro (http://mvmonteiro.blogspot.com/2007/05/gunon-sobre-os-nmeros-e-notao-matemtica.html) e suas Observações acerca da notação matemática (http://symbolos.com/cg4rgue2.html)e aplicado por exemplo por Luiz Gonzaga de Carvalho, o filho de olavo de carvalho, e Pedro Sette Câmara, na sua apresentação do simbolismo astrológico.Mas de certa maneira eu penso que quando calculei no início da minha aprendizagem astrológica os mapas à mão,cheguei a uns resultados mais verazes do que quando mais tarde os software corrigiu os cálculos.Aconteceu por exemplo, que um mapa calculado à mão com um ascendente no último grau de signo era mais acertado que o mesmo calculado pelo software colocando o ascendente no início do signo seguinte.Agora o software é preciso com uma pesquisa e um trabalho como você diz heroico, fazer este trabalho de volta à verdade aparentemente imprecisa, mas que o é mais do ponto de vista da tradição.guy Taillade

  Dr. R wrote @

@Guy: obrigado pelos links, é bom saber que tem um brasileiro estudando essa astrologia tão interessante de René Guenon e outros. Igualmente bom é ver que esse mesmo autor de blogue traduz algumas coisas do latim.Quanto ao que você disse, dá pra ver pelo tom do meu post que concordo com sua posição. "Precisão" para mim é uma fábula. Tal qual o progresso desenfreado, a precisão atropela os métodos antigos, que tinham em si uma riqueza metafísica perdida.Os movimentos dos planetas eram menos fidedignos ao que nos é mensurado pelos cálculos de agências aeroespaciais, mas e se o que nos é tomado por erro fosse na verdade algo com uma riqueza simbólica implícita? É isso que defendo. Sem contar que talvez consigamos interpretar um mapa com muito maior fidelidade à vida do consulente.

  Ludgero Senhorine wrote @

Olá, gostaria de aprender sobre Numerologia Indiana. Gostaria de receber informações de cursos sobre o tema. Obrigado.


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