Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Dwadasamsa ou dodekatemoria: o signo dividido por 12.

É interessante notar que alguns conceitos da Astrologia védica (ou jyotish, ou indiana) também dão as caras na Astrologia Medieval e Clássica do Ocidente, com o detalhe de que ninguém ou quase ninguém os usa há muito tempo.


Voltando a estudar astrologia védica, eu me deparei com algumas coisas interessantes e que preencheriam as lacunas deixadas por autores como Rhetorius quanto ao uso desses conceitos. Isso porque os indianos usam até hoje na sua astrologia conceitos que apenas eram citados nos livros de astrologia clássica do ocidente.

Dentre alguns conceitos indianos que notamos, eu diria que o mais incidente na Astrologia Clássica do Ocidente é a Dwadasamsa, que era chamada de Dodekatemoria.

Dodekatemoria é uma expressão grega que significaria “12” (dodeka) “porções” (moria). Trata-se uma divisão de cada signo em 12 ou 13 partes iguais. A verdade é que alguns astrólogos clássicos dividiam por 12, outros por 13 – o que me deixa um pouco perplexo, uma vez que a definição per se explicita 12 divisões! Ao mesmo tempo, Dwadasamsa significa “dividir por 12”, gerando 12 frações – ou porções! Por isso, acho que na Dodekatemoria devemos dividir um Signo em 12 partes, e não 13…

Robert Hand estudou a Dodekatemoria antes do modismo da Astrologia Clássica e dizia que, apesar do número 12 estar implícito na etimologia do termo, a divisão de um signo em 12 partes é errada porque o número 13 tende a ter uma correlação com o movimento natural da Lua durante um dia inteiro, etc. Ele dá razões metafísicas para justificar a divisão por 13. Toda justificativa é bonita antes de ter evidência histórica… Eu acho as razões que Robert Hand dá super bonitas…

…Mas estou preocupado com as evidências históricas.

A astrologia como conhecemos não é evidenciada entre os caldeus e babilônicos, mas sim entre os helênicos e indianos, um eixo que surgiu com o império romano de Alexandre. Desde então, a briga sobre quem seria o pai da Astrologia que usa todos os elementos que conhecemos hoje é muito similar à briga sobre quem criou o avião: os Irmãos Wright ou Santos Dumont? Os helênicos ou os indianos criaram a Astrologia?!


Muitos indianos defendem a criação da Astrologia porque as técnicas deles simplesmente são as mais complexas do mundo.


Ora, seguindo a lógica um pouco torta deles, o povo que cria uma ciência tende a desenvolvê-la primeiro que qualquer outro, agregando complexidades ao que criou. Os outros povos podem desenvolver a mesma ciência, mas nunca superarão em complexidade e experiência o povo pioneiro.

Se isso for verdade, então o berço da Astrologia como conhecemos realmente fica na Índia e o Ocidente apenas deturpou isso usando o zodíaco tropical e analisando tudo apenas num único mapa natal, enquanto eles usam o zodíaco sideral e ao mesmo tempo mais de 16 mapas pessoais além do mapa natal para estudar a vida de um ser humano!

Não vou entrar nessa briga porque existem vários historiadores e astrólogos que tratam disso e o leitor pode lançar mão do Google para descobrí-los. Ao contrário do que os indianos afirmam, alguns historiadores da Ciência afirmam a Astrologia nasceu no Mediterrâneo, mas o contexto todo é bem mais complicado do que a resposta a essa pergunta:

Apesar de terem muitas técnicas e conceitos similares àqueles encontrados na nossa prática ocidental, os indianos praticam simultaneamente uma astrologia baseada na divisão do zodíaco em 27 constelações e isso não tem precedentes na astrologia helênica.

Somente na Astrologia árabe que essas constelações serão citadas e chamadas de “mansões lunares”. Em verdade, o império criado por Alexandre, que se estendeu da Inglaterra à Índia, propiciou uma rede de intercâmbios comerciais e culturais, pelos quais a Astrologia em todos os locais desse império sofreram influências decisivas e nunca mais foram as mesmas. Podemos dizer que os gregos influenciaram os indianos e vice-versa.

Por outro lado, a questão da ‘criação da astrologia’ parece ser mais fácil de ser respondida quando especificada para um conceito ou técnica em particular. Parece que os gregos não aplicavam muito a Dodekatemoria. Ou esse conceito foi criado pelos indianos, ou surgiu simultaneamente nas duas culturas por intermédio de rotas comerciais, encontrando eco na cultura indiana. Assim sendo, quando falamos de Divisão de um Signo em 12 partes iguais, hoje creio sinceramente que os indianos são os pioneiros e mestres na prática dessa técnica.

Pelos indianos serem mais experientes no uso dessa técnica, defendo até então que a divisão tem de ser por 12 partes iguais do signo, gerando 2°30′ para cada Signo e atribuindo a primeira divisão ao próprio Signo e as seguintes aos Signos seguintes, como os indianos fazem. Por exemplo: se um planeta estiver em 1°45′ de Áries, então ele está na Dodekatemoria de Áries. Se ele estiver em 3° de Áries, estará na Dodekatemoria de Touro.

Depois de todo esse celeuma quanto ao cálculo correto, resta-nos saber pra que a Dodekatemoria serve.

Uma coisa que me chamou atenção em alguns autores clássicos é que a divisão do signo em 12 partes era usada em assuntos específicos, não em todos. Por exemplo, era comum ver a dodekatemoria citada em capítulos ligados ao pai e às condições neonatais do nativo. No capítulo sobre os pais, Rhetorius não cita essa técnica, mas a relata quando deseja conhecer as condições neonatais.

A partir da idade média, a técnica se dissemina em todos os assuntos, mas se mantém descrita com exemplos ainda nos capítulos dos pais de do status geral do nativo. Pode parecer coincidência ou não, mas os indianos usam até hoje a Dwadasamsa apenas para saber a condição dos pais do nativo, de um modo bem similar ao que se fazia na Astrologia Clássica. Qualquer outro assunto específico além da condição dos pais era descoberto por intermédio de outras divisões do zodíaco.

As divisões de um signo são estudadas em mapas a parte do natal – chamados de “mapas divisionais”. no caso da Dodekatemoria, os indianos montam um mapa à parte do natal (chamado de Dwadasamsa ou D-12) com as posições Dwadasamsa de todos os planetas. Dentro desse mapa, estuda-se a condição do pai pela nona casa a partir do Sol (porque na astrologia védica é a Casa IX que representa o pai, e não a IV!) e a condição da mãe pela quarta casa a partir da lua da D-12. Qualquer outro assunto que não diga a respeito do pai ou da mãe não se recomenda analisar na Dwadasamsa, mas sim em outros mapas divisionais.

O que é interessante observar é que um signo pode ser dividido de várias formas, sendo que algumas delas são usadas apenas para assuntos específicos. Isso é uma prova de que o divisor impõe sobre o dividendo uma qualidade, um significado, mas a Astrologia Ocidental não teve tempo de perceber isso porque não estudou mais a fundo outras divisões além dos termos e decanatos. Na Índia, cada forma de divisão merece um mapa a parte, que é estudado em grau variado de profundidade pelas diversas correntes da jyotish.

As divisões consagradas na Índia e que se tornaram conhecidas no ocidente são a já comentada D-12 – Dwadasamsa, que é chamada de Dodekatemoria – e a D-9, chamada de Navamsa pelos indianos, de Noupachrates por Abu Ma’shar e de Novenaria por Bonatti. Na Índia, se usa a D-12 para saber as condições dos pais, enquanto a D-9 simplesmente é o segundo mapa mais importante depois do mapa natal. Ele é tão importante que não é usado somente para um assunto em particular, mas reflete como o indivíduo realiza seu dharma em todas as áreas da vida.

Quanto a um dos poucos usos da D-12 na Astrologia Ocidental, Abu Ma’Shar usa a dodekatemoria como uma influência indireta nos trânsitos e revoluções. Por exemplo, se um planeta transitar pelo Signo de Câncer, ele influenciará aquilo que está no signo e ao mesmo tempo nas dodekatemorias de Câncer.

Por exemplo: Eu tenho o Sol em 6 de Áries. A dodekatemoria desse sol de acordo com os indianos fica no signo de Gêmeos (0 – 2°29′ – Áries; 2°30′-5°00′ – Touro; 5°00′-7°30′ – Gêmeos). Assim sendo, qualquer planeta que transitar em Gêmeos influenciará o Sol e os assuntos que ele rege por casa e por partes árabes. Esse modo de usar a Dodekatemoria é usado por alguns astrólogos védicos até hoje na Índia, rastreando a influência dos trânsitos sobre todos os mapas divisionais.


A questão que fica para pensarmos é: qual é o limite para a aplicação dessas técnicas, retirando-as de um contexto e as introduzindo noutro? Quais são os impedimentos que limitariam o intercâmbio entre Astrologia Jyotish e Ocidental?

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