Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Os dias da semana estão errados?!

Eu sou leigo em vários assuntos, e me arvoro em todos eles. Esse é o mal da Internet. São os tempos do kaliyuga… Mesmo assim, eu acho que sei um pouquinho mais de Astrologia do que o senso comum. Em se tratando da discussão da relação entre os planetas e os dias da semana, porém, a coisa deixa de ser Astrológica somente, para colocar em xeque as minhas habilidades matemáticas, que não são lá grande coisa. Portanto eu peço previamente perdão aos meus leitores caso cometa alguma gafe matemática. Peço as intervenções sempre convenientes de vocês se preciso…

Comecemos então. A primeira pergunta que eu me fiz foi a seguinte: desde quando os dias da semana são contados? Será que a sequência dos dias da semana foi interrompida em algum ano? Será que houve “saltos” similares àquele da transição do calendário Juliano para o Gregoriano? Procurei pela Internet em fontes confiáveis e nada de se obter resposta. Minha pergunta é simples mas parece que nem a Wikipedia deu jeito. A única certeza que tive foi que um imperador Romano chamado Diocletiano resolveu adotar os dias da semana e com isso eles são contados religiosamente até hoje. Eu respondi a parte da minha pergunta, isto é, os dias da semana são contados corretamente desde o século IV depois de Cristo, mesmo com a mudança do calendário Alexandrino para o Juliano e deste para o Gregoriano. Até aí, tudo bem, porém estamos falando de autores que viveram antes disso.

O primeiro autor a citar a semana de sete dias – com cada dia atribuído a um planeta – foi ninguém menos que Vettius Valens, que de vez em quando dá um oi para a gente nesse blog. Valens foi contemporâneo de Ptolomeu – em outras palavras, ele viveu antes de Diocletiano instituir a semana de sete dias. Antes dela, os Romanos viviam com sua semana de oito dias! Não se assuste muito, porque os chineses tinham semanas de 10 dias!

Todas essas informações trazem a tona conclusões interessantes. A primeira motivação de se estabelecer a semana como nós conhecemos hoje não é estatal nem política, mas sim Astrológica. Os sete dias da semana foram um sistema concebido para atribuir a cada dia um planeta, com fins muito mais “místicos” do que propriamente um controle estatal do tempo, como é comum em todos os calendários. Em outras palavras: quando Valens ensina no seu livro a saber em qual dia da semana caiu 13 de Mequir, não é com nenhum propósito prático como seria nos dias de hoje, como quando você quer saber se dia 21 de agosto cai num sábado para marcar um churrasco. A razão era puramente Astrológica porque a semana de sete dias ainda não era instituída como hoje como um organizador da vida humana! Não havia essa história de Domingo e Sábado livres!

Aí que voltamos para Valens. Nesse momento, é fundamental citar a Antologia, no primeiro livro, capítulo 9 – Acerca da Esfera de Sete Zonas:

“Por exemplo, o quarto ano de Adriano, Décimo Terceiro dia de Mequir,
primeira hora da noite(…) e assim chegamos ao dia de Hermes

Quarta-feira é o dia de mercúrio (Hermes), que em espanhol soa mais próximo do planeta do que no Português: miércoles. Em outras palavras, no calendário Egípcio, 13 de Mechir do quarto ano do Imperador Adriano foi uma quarta-feira. Como podemos provar isso? Fui pelo mais simples e resolvi:

  1. Converti a data acima para o calendário Gregoriano com um software simples e pequenino do Benno van Dalen;
  2. Fiz um mapa para aquela data e vi qual era o planeta regente do dia.

A resposta: de acordo com o nosso Calendário Gregoriano, o dia em questão era uma… SEGUNDA-FEIRA, dia da Lua…

Se Valens estiver certo, então os dias da semana foram descontinuados da mesma forma que na transição do calendário Juliano para o Gregoriano. Pela lógica do autor, na madrugada de sexta para sábado em que escrevo esse texto, na verdade deveria ser a madrugada de Domingo para Segunda-Feira!

Não podemos ser muito empolgados com essa descoberta. Pode ser um dos incontáveis erros dos manuscritos da Antologia, até porque muitos trechos são repletos de erros dos copistas ou possuem grego corrompido pela ação do tempo. Por outro lado, Robert Hand e Robert Schmidt sequer acrescentam a esse trecho uma nota de rodapé dizendo que o grego está corrompido, ou que a contagem está errada. Infelizmente, ainda não encontrei uma outra data contemporânea a Valens para ver se há uma coerência, mas considero esse fenômeno interessante e digno de estudo.

O fato dos dias da semana estarem errados pode trazer consequências interessantes para a nossa prática – nada de muito impactante, como seria grave mudar do zodíaco sideral para o tropical. Mesmo assim, as mudanças que esse conhecimento implicaria poderiam tornar muitas práticas Astrológicas mais efetivas, como as construções de mapas eletivos.

Preciso terminar porque eu trabalho sábado, que para Valens é uma Segunda, dia da Lua…

9 Comments»

  Gabriel wrote @

Independente de estar certo, é muito interessante.Parabéns pela iniciativa e curiosidade!!!

  Elias Mendes wrote @

Faço eco ao gabriel …seu blog é muito bom e tem me ajudado muito em meus estudos na astrologia tradicional.

  Dr. R wrote @

obrigado pelo retorno gente, é bom demais ouvir coisas do gênero.

  Alexey wrote @

O que mais me chama a atenção, em verdade, é outra coisa: a metafísica por detrás da Astrologia é realista ou nominalista?Se admitirmos que a metafísica astrológica é realista, então é possível dizer que a cultura que elaborou a Astrologia Ocidental é a "correta", enquanto todas as outras produziram apenas arremedos, meras tentativas de alcançar a Verdade. Ou seja: faria sentido procurarmos saber se hoje é VERDADEIRAMENTE dia do Sol ou não.Mas se tudo não passar de nominalismo, não existia o verdadeiro dia do Sol, ou o verdadeiro dia de Mercúrio, e tudo funciona porque todo sistema criado justifica a si mesmo. E funciona! :))

  yuzuru wrote @

oi rodolfoacho que a mudanca se deu no gregoriano.muita tinta ja foi escrita sobre isso mas nao consigo encontrar a referencia agora.de qualquer jeito, nao vejo muita importancia para o caso, ja que ate os vedicos usam o mesmo calendario e nao parecem ligar para esse tipo de consideracao.

  Dr. R wrote @

Yuzuru,Calculando os dias semanas erroneamente, talvez estejamos rejeitando uma ferramenta que complemente o raciocínio de outras técnicas. Acredito que cada técnica Astrológica tem o seu lugar, e os dias planetários serviriam para delimitar o dia de um evento. Por isso é interessante estudá-la e ver se os dias que Valens e Abu Ma'shar usam são os mesmos que nós usamos.Mas eu concordo que os dias planetários são apenas uma filigrana do raciocínio astrológico. Podemos viver sem eles, como eu vivi até hoje. Só acho que poderia me divertir com eles da mesma forma que me divirto com técnicas que falam de períodos de tempo maiores, como a profecção anual/mensal.

  Dr. R wrote @

AlexeyEsse dilema Realista/Nominalista é muito interessante, pela seguinte razão: a Interpretação Astrológica se baseia em fatos Astronômicos, então ela carrega em si uma porção realista. Esse dado AstroNômico, porém, passa pelo filtro da subjetividade do Astrólogo em tecer uma interpretação.Tomando-se as diversas culturas nas quais a Astrologia cresceu, teremos diversas interpretações do mesmo fenômeno Astronômico. Quando eu me refiro aos dias da semana, porém, a questão é um pouco mais específica, e foge desse dilema: eu quero empregar os dias da semana da mesma forma que autores clássicos empregaram não porque considere-os mais corretos do que autores modernos, mas sim porque fiz a escolha de praticar e ensinar Astrologia Clássica e sou da opinião de que devemos ensinar um sistema em sua plenitude, incluindo seus métodos matemáticos.Diante dessa circunstância específica, acho necessário investigar os dias da semana, mas concordo que não existe Astrologia Correta, e sim sistemas autônomos fechados suficientes para descrever a realidade.

  Ana Bednarski wrote @

Como vc arruma tempo? risosEm todo caso lá vai já ouviu falar no calendário perpétuo ( cristão, certo?)http://www.ghiorzi.org/caleperp.htmcaso ajude temos o islâmico:http://www.novomilenio.inf.br/porto/mapas/nmcalens.htm

  Alexey wrote @

A questão, Rodolfo, é que mesmo que a Astrologia considere pontos astronômicos – o que daria a ela uma porção realista – esta consideração é perspectivista, e não real.Se fosse real, teríamos que considerar as posições heliocêntricas, e não as posições dos planetas em torno do sujeito que nasce.Há outros problemas embutidos: se o que vale é a perspectiva [a perspectiva é real], como explicar a funcionalidade dos corpos planetários invisíveis a olho nu. Enfim, pano pra manga.Mas acho essa pesquisa bem interessante. Eu vou procurar por aqui uma apostila da USP que fala detalhadamente sobre o lance dos calendários e te repasso por e-mail. Parabéns pelo blog!


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