Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Alguns critérios de interpretação segundo Valens.

O tema mais revelador da obra de Valens é o das mortes violentas. Neste tópico, Valens versa sobre as inúmeras configurações que representam uma morte violenta. Não sendo suficiente, Valens da´detalhes sórdidos como esses:

“Como uma ilustração, seja o Sol, Marte, Vênus em Câncer; Saturno e Mercúrio em Leão; Júpiter em Aquário; a Lua em Peixes; o Ascendente em Escorpião, o Lote da Fortuna em Leão, o local mortífero [oitavo signo a partir do Lote da Fortuna] em Peixes. Naquele local [isto é, o local mortífero] está a Lua, e Saturno está sobre o Lote. O Sol, Regente do Lote, está com Marte em Câncer, num signo úmido. Ele morreu, então, numa banheira, afogado. Marte estava em oposição à Lua Cheia; e Saturno, o Regente [da Lua Cheia], estava em aversão [ou seja, não aspectava o signo da Lua Cheia].”

Chocante e nas raias do patético, não? Eu não tenho problemas éticos em estudar um assunto como esse. Na verdade, qualquer oportunidade de ler um registro de interpretação de um mapa do período helênico já me deixa feliz. Como o capítulo sobre a morte está repleto de exemplos de interpretação, estamos diante de uma excelente oportunidade de entender como um Astrólogo helenístico analisava uma natividade. Tendo pudores, quem perde sou eu.

Eu não tenho nenhuma “tara” em ficar fuxicando a morte das pessoas. Depois de ler o trecho de Valens, é claro que me deu curiosidade. Pelo menos deu para descobrir que não será o meu caso, mas se releio esse capítulo é porque os frutos dessa leitura ultrapassam a mera previsão de morte e podem ser aplicados em outros tipos de análise natal. Por isso que estudo a morte com a maior paz desse mundo. Eu quero entender a técnica por trás disso tudo e aplicar o que pode ser aplicado em qualquer outro tema da natividade. Ao longo desse capítulo pouca ênfase será dada à morte e muito mais à técnica que está por trás da sua previsão.

Algumas pessoas podem dizer que as regras usadas para entender as mortes violentas não se adequam às outras regras de delineação das outras áreas da vida. Pode parecer opinião de maluco mas, existe uma coerência no texto de Valens que está presente em todos os tipos de análises: casamento, filhos, etc. É essa coerência que vamos dissecar um pouco agora. O tema da morte é interessante porque é um dos primeiros registros nos quais há vários pontos a serem analisados simultaneamente. Abaixo, eu listo os principais:

  1. Parte da Fortuna
  2. Regente da Parte da Fortuna
  3. Oitavo Signo da Parte da Fortuna (que Valens chama de “local mortifero“)
  4. Lunação Anterior ao nascimento (cheia ou nova)
  5. Regente da Lunação Anterior ao Nascimento

Se você estuda Astrologia Medieval ou já leu esse blog antes, já reparou que esse padrão é familiar nos livros de Astrologia Árabo-Medieval. Quando Bonatti ou Abu Ali Al Khayyatt queriam estudar um tema específico no mapa, eles recorriam a vários pontos que tivessem relação com o assunto. Se queriam analisar casamento, olhavam para Vênus, a Casa VII, a Parte do Casamento, etc. O tema das mortes violentas de Valens é importante porque ele é o primeiro da Astrologia Grega no qual há vários pontos a serem analisados e o Astrólogo ao final tem de sintetizar o assunto, havendo com isso exemplos. Na obra de Valens, há temas de complexidade similar, mas não com tantos exemplos assim. Eis a maior razão pela primazia no estudo da morte na sua obra!

Com tantos planetas e locais a serem analisados, surge pela primeira vez o dilema que prosseguirá em toda a era árabo-medieval da Astrologia: afinal de contas, qual planeta é mais importante para descrever o assunto em questão? Vamos tentar entender como Valens respondia a essa pergunta.

Na previsão de morte, há sempre a hipótese do Astrólogo validada por uma interpretação do mapa natal. Os exemplos de Valens mostram planetas que corroboram com uma hipótese e um planeta que descreve a hipótese. Mortes violentas eram dadas pelo aspecto tenso ou conjunção de maléficos a todos aqueles pontos acima. Se todos os pontos acima estivessem aflitos, a morte violenta seria certeira, mas um deles teria a maior autoridade em descrever o modo como o nativo morreu. Estamos procurando por esse porque Valens não dá uma regra clara de achá-lo. Temos de ler mapa-a-mapa dos exemplos da Antologia para chegar a uma conclusão, por vezes nos indagando se Valens fez apenas um exercício de interpretar após o fato como muitos Astrólogos fazem hoje em dia… Se isso for verdade, mesmo assim vale a pena estudar pois Valens mostra um padrão de interpretação coerente.

Lendo todos os exemplos de Valens, o planeta que descreve a morte seria aquele que estivesse aspectando a maioria dos pontos acima, sendo preferido aquele que tivesse alguma autoridade sobre esses pontos. Em alguns trechos, Valens ignora o fato do significador da morte estar cadente ou até mesmo em combustão! Há razões para se entender isso, que serão explicitadas abaixo.

A principal razão para se ignorar a força de um planeta como determinante é muito simples. Imagine que você tem Júpiter forte na Casa X do seu mapa e todos os outros planetas são medíocres na carta. Se escolhêssemos sempre o planeta mais poderoso para um assunto, rapidamente Júpiter tomaria a frente de vários temas do mapa natal. Se você usar todas as dignidades menores e partes árabes que conhece, aposto que você conseguiria “enfiar” esse Júpiter em qualquer assunto da sua vida! Júpiter seria você, sua mulher, seus filhos, seu cachorro, sua Casa, seu carro e até onde você passaria as férias. Antes de você virar Júpitermaníaco, leia o recadinho de Valens:

Agora, como é possível para uma estrela, mesmo sendo a Regente, dar boa sorte à natividade em todos os aspectos, ou em oposição dar má sorte (em tudo)? É mais comum, em geral, o Regente do suporte original de nascimentos notáveis, mediocres ou desprezíveis ser encontrado de modos diferentes. Ou, de outra forma, ele supriria poder para os suportes restantes mas seria diferente dos regentes restantes. E nós encontramos alguns que são afortunados na sua vida e reputação e que são honrados com toda a pompa quando o Regente parece estar configurado congenialmente, mas desafortunado com suas crianças e mulheres, bem como se tornando licensiosos e vergonhosos e sujando suas vidas, sendo falados como indignos de tal suporte (de fama), e que mais tarde são reduzidos (na sua glória) ou têm uma morte violenta. O nativo, então, não se tornou afortunado, ou seja lá qualquer coisa consistente com o Regente, em todas as coisas, mas uma Regência diferente, por estar aflita, diminuiu a reputação pela introdução de muitas acusações.

Nós também compreendemos outros que foram de uma fortuna deprimida e sem reputação a um suporte inigualável e inesperado; e alguns que foram afortunados com suas crianças e mulheres, mas necessitados nos seus meios; e outros que são felizes na área de propriedade, mas sem reputação e até mesmo doentes; e outros que tem longevidade, mas mutilados e cheios de labores e alguns que têm muitas propriedades mas vivem pouco ou são consumidos, não estando aptos a partilhar do presente. [Nesses casos], o doador da vida, então, era um planeta, e o Regente da Existência e da Morte outros.

Valens disserta sobre a diversidade do destino para cada pessoa. Não existem pessoas completamente azaradas ou completamente sortudas. O menino que mora numa cobertura no Leblon pode ter problemas familiares e morrer cedo num acidente por ter dirigido bêbado a sua BMW; o morador do Vidigal pode trabalhar duro a vida inteira mas ter filhos saudáveis, estudiosos e famosos. O homem que foi discriminado a vida inteira por ser negro e louco pode um dia achar 500 reais na praia (isso aconteceu!). Valens dá uma palavra de ordem de que essas contradições entre diferentes áreas da vida têm de ser representadas pela Astrologia e portanto o tema não é simples, sendo necessário vários planetas em condições diferentes num mesmo mapa para descrever essas discrepâncias; caso contrário, vamos contar uma fábula ao consulente só porque ele tem Júpiter na 10!

Eis a razão para entender porque o seu Júpiter de Casa X não pode te garantir uma vida maravilhosa em todas as áreas. Ele será excelente para os assuntos do qual testemunhar; para os assuntos restantes, não. Valens não se diferencia dos Astrólogos Medievais nesse ponto. Ao contrário, ele têm o raciocínio embrionário que se desenvolverá nos séculos seguintes!

Os astrólogos árabes e medievais que sucederam Valens davam grande importância à força de um planeta no testemunho de um assunto, mas esse planeta deveria ter simultaneamente uma grande relação com o tema através de aspectos ou de regência. De nada adianta Júpiter estar angular na Casa 10 se eu o quero tendo alguma relação com meus irmãos. Se júpiter não reger a Casa III ou a Parte dos Irmãos, e não aspectá-las, o testemunho dele é pequeno para o tema e meus irmãos estão excluídos do “clube de vantagens” de Júpiter!

O mapa todo em função de uma coisa só: esquecendo um pouco a tal “determinação local”.

Aqui, uma contradição à teoria bonitiha de Morin de Villefranche, que virou um vício de quem (acha) que está usando regras muito antigas e corretíssimas: ao contrário de Morin, se você começar a ler Valens, perceberá um outro ponto de vista: nem sempre um planeta que está na Casa descreverá os assuntos dela!

O que o tio Morin ensina? Marte na 8 representa morte violenta. Ponto. A mesma coisa de Marte regendo a oito e aspectado por Saturno – e mais ainda se o regente do Ascendente estiver presente na configuração.

Morin confia muito nas Casas, mas neste artigo falamos de um tipo de Astrologia que ele desprezou e simplificou. Morin quase não usava Lotes no seu trabalho (que ele chamava de “Partes Árabes” e considerava uma “loucura dos árabes”). O problema disso reside no fato desses Lotes serem tão importantes quanto as casas dos mesmos assuntos que eles representam. A própria Parte da Fortuna era um ponto análogo ao Ascendente do nascido! Em outras palavras, estudar o signo Ascendente e desprezar a Fortuna era fazer metade do serviço!

Segundo o approach de morin, o marte da figura descrita acima não está na Casa VIII, tampouco na Casa 8 a partir do Lote da Fortuna. Ele também não tege esses locais. Se fôssemos descrever a morte do rapaz, começaríamos pelos planetas regentes da VIII ou seus ocupantes. Por esse viés, seria mais difícil chegar a marte. Se escolhêssemos o planeta mais forte, com certeza ele não seria Marte, porque ele está numa Casa Cadente (a IX) e muito próximo do Sol. como então marte poderia estar determinado à morte? A questão toda é que marte rege alguns pontos importantes do tema de morte e aspecta outros Regentes importantes do mesmo tema. Em outras palavras, Marte “está em todas”. Um planeta assim com certeza descreve melhor os temas do que outros porque ele testemunha a todos.

Se você estudar melhor o mapa acima, perceberá que estou simplificando um pouco. Na verdade, marte está em conjunção com Vênus em signo aquoso. Marte e Vênus juntos explicam bem a morte do nativo – uma morte violenta (marte) num local onde ele se limpava e se perfumava (Vênus)…

5 Comments»

  yuzuru wrote @

“Se escolhêssemos sempre o planeta mais poderoso para um assunto, rapidamente Júpiter tomaria a frente de vários temas do mapa natal.”AHA ! Eu sempre te disse isso quando voce sugeria o metodo de “vamos pegar o regente mais angular ou forte para significar um tema”. Na teoria pode parecer bom, mas a maioria das pessoas tem apenas um ou dois planetas bem dispostos !

  Anonymous wrote @

“De nada adianta Júpiter estar angular na Casa 10 se eu o quero tendo alguma relação com meus irmãos.”Isso sem falar que a casa 10 é a morte do irmao, e nunca é bom que o significador de irmaos esteja nessa casa.

  Dr. R wrote @

eu dou o braço a torcer nesse caso mesmo, rs.

  yuzuru wrote @

Uma das coisas que me deixa com a pulga atrás da orelha, é que o povo hoje em dia adora usar os sistema de whole signs. Mas se você ver, me parece marcante a falta de delineacao de valens usando os regentes das casas, nao te parece ?Assim, é muita conversa sobre os significadores essenciais, as partes, principalmente fortuna, mas tem muito pouco “o senhor da 5a na 10 significa tal coisa”.alguma opiniao sobre o tema ?Já leu o Abu mashar ?

  Dr. R wrote @

Ainda não li. Inclusive gostaria de saber se você tem alguma coisa do Abu Mashar além do OSR porque realmente é difícil de encontrar, mas no próprio OSR ele usa regentes das Casas e já faz uma distinção entre signos inteiros e Casas quadrantes, mas usa as duas.Parece que o uso de regentes das Casas se consolidou na Astrologia Árabe depois do estabelecimento da Astrologia Horária. Interessante é que no uso dos regentes das Casas a maioria dos exemplos são do sistema quadrante, então sua suposição faz sentido.


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