Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Astrologia médica e a Parte da Fortuna

Recentemente entrei em contato com o segundo livro da Antologia de Vettius Valens. Surpreendeu-me o estudo da Parte da Fortuna para saber as partes do corpo suscetíveis a lesões no corpo humano.

De fato, saber onde está a lesão ou a dor é a melhor maneira de se abordar Astrologia Médica em qualquer época da humanidade, porque na medicina muita coisa mudou desde o primeiro século depois de Cristo. Se você deseja estudar Iatroastrologia (um sinônimo), precisará aprender conceitos de Medicina Hipocrática e Galênica. Apesar de ter sido monitor de História da Medicina na faculdade, eu mesmo não sei lhe dizer como se aplicariam esses conceitos.

Toda essa necessidade é simples: os livros antigos citam doenças “causadas por excesso de frio” ou por “excesso de quentura e secura”. Você sabe como identificar doenças assim hoje? Eu também não… Mais do que identificá-las, é preciso converter esses achados para a nossa linguagem médica atual…

A medicina atual tem como critérios de classificação de doenças a Fisiopatologia, a Genética e a Biologia Celular e Molecular. Na idade média e no período Clássico, as doenças eram classificadas pelo que se podia ver delas: os fluídos expelidos ou que saíam do corpo e a temperatura. Doenças que tinham sinais e sintomas parecidos pertenciam ao mesmo grupo. Hoje em dia, a convulsão de uma criança por febre para nós não é a mesma doença que um epiléptico possui, mas como em ambas os tremores são presentes, acreditaria-se que teriam a mesma causa, reputando isso ao excesso de um determinada qualidade essencial – o seco, o frio , o quente e o úmido.

Por conta dessa mudança de paradigma, não pense que o mapa vai lhe dar as doenças da classificação moderna simbolizadas por um aspecto isoladamente como “lua em quadratura com marte”… Você pode até fazer pesquisa estatística para perceber predisposições, como o Espaço do Céu fez no seu livro de Astrologia Médica, mas isso significa criar uma astrologia médica atual, que não depende de nenhuma tradição astrológica ocidental nem oriental. A única maneira usar da tradição astrológica, contudo, é basear os nossos achados no que se manteve constante esses séculos todos: a topografia (localização) das lesões. Você pode até não saber hoje o que é uma doença por excesso de frio e umidade, mas se o autor do século I d.C. diz que ela se localiza nos pés para pessoas com determinadas configurações planetárias, será fácil para você perceber nos mapas que possuam as mesmas características se os aforismos são verdade ou não, e é isso que Valens propõe no estudo da Parte da Fortuna.

No sistema de Valens, as partes do corpo representadas pelos signos onde estão a Parte da Fortuna, a Parte do Espírito e seus regentes são os principais indicadores dos locais das lesões, principalmente a Fortuna e seu Regente. Pelo que entendi do texto, tais partes podem representar também a causa mortis. Invariavelmente, são partes do corpo suscetíveis. Se estes locais estão aflitos por maléficos, então o dano é mais precoce ainda – a pessoa pode ser afligida por elas durante toda a sua vida. Seriam aqueles com doenças crônicas, ou até mesmo incapacitados, como deficientes físicos.

A correspondência entre os signos e as partes do corpo não mudou muito desde Valens até hoje, mas existem algumas atribuições zodiacais que surpreendem. Por exemplo, o signo de Gêmeos. É sabido por nós que o terceiro signo rege os braços e os pulmões, mas veja o que Valens diz sobre ele:

Gêmeos são os ombros, braços, mãos, dedos, juntas, tendões, força do espírito humano, mudança, geração de mulheres, discurso, boca, tubulações de vento e voz. Quando está aflito, produz injúrias nestas áreas, e leva [os nativos] aos caminhos dos ladrões e dos soldados hostis, e eles se entristecem com traumas, cortes e amputações dos membros; produz também aqueles inclinados à icterícia ou a quedas de altura.

O termo “tubulações de vento” (do inglês wind pipe) é ambíguo hoje em dia. Valens pode estar se referindo tanto aos Brônquios e bronquíolos pulmonares – tubos por onde o ar circula no corpo – quanto às artérias: na antiguidade, quando um cadáver era dissecado, acreditava-se que as tubulações vazias no corpo todo eram durante a vida percorridas por ar, quando na verdade nós sabemos hoje que havia sangue ali. Daí o nome “AR-téria”! A ambiguidade não é somente léxica, já que Gêmeos é um signo quente e úmido, representante do temperamento sanguíneo. Esse tipo de temperamento ou constituição era conhecido na antiguidade por doenças causadas pelo “excesso de humor sanguíneo”.

O termo “geração de mulheres” parece estranho também, mas pela minha experiência eu acredito que Gêmeos esteja envolvido na gênese do aparelho genital feminino e seus anexos – útero, trompas uterinas, etc. Já vi no hospital um caso de uma mulher com a parte da Fortuna aflita nesse signo que não tinha útero.

As aflições à Parte da Fortuna e do Espírito podem ser muitas:

  • Conjunção, Oposição e quadratura dos maléficos (Marte e Saturno);
  • A Parte pode estar sob os raios do Sol (perto do sol a menos de 17 graus);
  • A Parte pode estar conjunta a uma estrela fixa maléfica, como Algol (na constelação de Perseu, perto da constelação de Touro);
  • Quanto ao planeta que rege a Parte, você saberá se ele está aflito da mesma forma como avalia qualquer planeta. Os três itens acima são exemplos de aflição, bem como a sua presença em casas cadentes.

O mais comum para mim é ver a Parte e seu Regente sem aflições, o que indica que a pessoa tem uma saúde excelente e só experimentará problemas isolados e agudos, como litíase biliar (“pedra na vesícula”). Quando isso acontece, é preciso ver a Revolução Solar do período. Deve-se tomar cuidado com maléficos na Revolução Solar em aspecto difícil com a parte ou seu Regente, principalmente se na Revolução estes maléficos estiverem nas Casas 6, 12 ou 8.

Já vi um caso de “pedra na vesícula” que requeriu cirurgia. A nativa tinha a Parte da Fortuna no signo de Virgem sem aflições. No ano da cirurgia, provavelmente ela experimentou uma Revolução Solar ruim para saúde.

Graças a um autor do primeiro século depois de Cristo, Astrologia Médica deixou de ser um bicho de sete cabeças. Se você acompanhar minha trajetória nesse blog, perceberá minhas críticas a esse ramo do conhecimento. Antes de Valens, testei inúmeros autores e encontrei resultados muito parcos.

2 Comments»

  yuzuru wrote @

Rodolfo, as doencas por excesso de frio, calor ou umidade ainda sao usadas em quase todas as formas de medicina indigena, sem falar de variacoes do tema na acumpuntura, herbologia e outras parecidas.Por exemplo os indios de colombia dividem suas plantas em quatro principios: quente e frio, amargo e doce.

  Nalu wrote @

Parece com algumas coisas da medicina chinesa também esse lance de quente e frio…E vc ainda vai colocar o que Valens fala sobre os signos? Nossa, acho que Valens deve ser muito interessante de ler. Abraços.


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