Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

A Recepção é um bicho de sete planetas?

O trecho abaixo foi retirado do livro de Mashallah, chamado “On Reception”, editado pela ARHAT. O trecho está no site de Robert Hand, disponível nos links ao lado, eu apenas o traduzi. Trata-se de um capítulo no qual Mashallah ensina a interpretar uma questão concernente a doença. Aqui, basta saber que vênus em Capricórnio se separa de Saturno em Áries e se aplica a marte em Touro.

“Depois disso, eu olhei para um aumento ou diminuição da doença. Procurei pelo regente da casa da doença; ele era Saturno, o qual não se aplica a qualquer um dos planetas porque ele é o mais lento de todos. Assim, eu olhei para algum dos sete que estivesse porventura se unindo a Saturno, ou que estivesse separando-se dele, o planeta que seria o mais adequado para [representar] doença. Encontrei Vênus separando-se de Saturno ( o qual é o regente da casa da enfermidade) por sete dias [aspectando] a casa da enfermidade, porque Vênus estava na casa da enfermidade. Assim, Vênus significava a diminuição da doença porque ele estava se separando de Saturno, o qual era o senhor da casa da doença por sete graus, e ele se unia a marte o qual a recebia, e por sua vez ele foi recebido por ela. Ele a recebeu em sua exaltação [Vênus está em Capricórnio, a exaltação de marte] e ela [Venus] a recebia em seu domicílio. Assim, ambos significaram a diminuição da doença e o advento da saúde, de acordo com o comando de Deus. Examine dessa forma [em todos os problemas concernentes a] doença e saúde.

O trecho é bastante revelador. Se você procurar o arquivo desse blog, vai perceber que disse no passado coisas muito contraditórias ao que escreverei hoje sobre o fenômeno da recepção entre planetas. No exemplo, acima, há recepção para planetas cadentes e debilitados como vênus e marte, mas isso nunca foi oficialmente permitido na astrologia dita medieval, aquela com a qual entrei em contato desde meu curso de astrologia com Robert Zoller. Eu sempre defendi aquilo que lia, embora achasse por vezes um pouco ortodoxo. Eis que vejo um autor medieval, mestre dos demais (Abu Mashar era um discípulo de Mashallah) que é muito mais tolerante com esta questão. Para você entender o que eu falo, talvez precise voltar ao início: a definição de recepção.

Toda vez que um planeta se encontra no domicílio ou na exaltação de outro e se aplica a este, há uma recepção. Por exemplo, Vênus está em sagitário e se aplica a Júpiter, regente de sagitário. Com isso, júpiter recebe vênus.

Há recepção também quando o planeta se encontra em duas dignidades menores do outro. Por exemplo, Vênus pode estar ao mesmo tempo na triplicidade e termos de marte. Quando ela se aplicar a marte, há recepção da mesma forma.

A implicação prática disso: se vênus porventura representar vida, e Marte a morte, o nativo não morrerá, porque Marte (a morte) recebe vênus (a vida). Se não houvesse recepção, a morte ocorreria. Sendo bem sintético, a recepção que um regente uma casa de significado ruim faz com outro planeta não gera resultados desastrosos como parece a primeira vista.

No trecho de Mashallah, temos um belo exemplo de aplicação de todos os conceitos que mais põem em duvida os astrólogos tradicionais na hora de se avaliar uma recepção. Não foi dito ainda, mas avaliar uma recepção pode ser algo complexo. Por exemplo, a recepção entre planetas que estejam em detrimento. Felizmente, é o caso do planeta marte descrito no exemplo.

Vendo esse exemplo há alguns meses atrás eu diria que marte não pode receber vênus porque ele está em seu detrimento; Venus, da mesma forma, não pode se aplicar a marte porque está cadente. Segundo Bonatti, a recepção deve ocorrer somente entre planetas que não estejam em detrimento, queda, retrógrados, aflitos, cadentes ou sob os raios do sol. Com todas essas exigências, observar uma recepção fica mais difícil do que contemplar um Dodô, pássaro da Oceania extinto no século XVIII. Parece que Mashallah é muito mais tolerante do que os seus sucessores, o que é bom pois amplia (e muito!) nossos horizontes interpretativos. Os próximos parágrafos explicam para você o passo a passo do exemplo, para que entenda o quanto a astrologia pode explicar os comportamentos humanos e as dinâmicas de vida com precisão.

O autor queria saber se a doença do nativo melhoraria. Ele procurou, portanto, o regente da doença, que no caso é Saturno, que se encontra na terível casa oito em Áries, signo de sua queda. Desconsiderando os aspectos, o quadro é bem difícil, mas Vênus se separa de Saturno, indicando que esse benéfico pode ter alguma relação com a doença, mas isso ainda é uma suposição. Para confirmarmos, é necessário aprender uma importante lição: o planeta só tem a ver com um assunto se ele aspecta ao mesmo tempo seu regente e a casa referente a ele! Um planeta sempre rege duas casas, mas se ele faz aspecto com outro isso não quer dizer que as duas casas serão relacionadas a esse outro! Vênus está em Capricórnio, mas não aspecta aquário: na questão sobre doença, temos certeza de que ela não tem nada a ver com a casa cuja cúspide cai em Aquário, o outro signo regido por Saturno! Ela não tem nada a ver com a casa VII! Eventualmente, um planeta pode aspectar as duas casas regidas por ele ou pelo outro. Se vênus estivesse em Câncer, ela aspectaria tanto Áries quanto Escorpião.

C0nfirmando tudo que foi dito acima, Mashallah nos mostra que Vênus tem a ver com doença por: a) aspectar o regente da doença e b) ao mesmo tempo estar na casa da doença. Sua separação de Saturno indicaria que a doença diminui, pois vênus é benéfica e a separação indica diminuição ao longo do tempo, mas há um problema aqui: Vênus vai na direção do aspecto do maléfico marte! Será que a pessoa morrerá?

Você já sabe que não, pois o autor disse que há uma recepção mútua entre vênus e marte. Um está numa dignidade do outro: Marte se exalta em Capricórnio, e Vênus tem o seu domicílio em touro, mas aqui entra a maior dúvida desse artigo: pode haver recepção entre um planeta em detrimento e outro? Mashallah nos responde que sim, contrariando os astrólogos que o sucederam. Na verdade, a questão é mais complicada do que parece.

Apesar de marte estar em detrimento, ele está na sua triplicidade de terra (segundo Dorotheus de Sidon), uma forma de dignidade que conta. Apesar de estar em detrimento, ele tem dignidade, ainda que seja uma menor. Da mesma forma, Vênus está em sua triplicidade em Capricórnio. À medida em que você estuda os outros exemplos do livro, percebe um fio condutor que une o raciocínio do autor: um planeta pode estar em seu detrimento e cadente, mas se ele tiver uma dignidade menor (triplicidade, termo e face) pode ser recebido ou receber. A qualidade da recepção, contudo, é menor, e o planeta leva a perfeição as coisas com dificuldade ou ódio. É a mesma coisa que ocorre no exemplo abaixo, do mesmo livro, no qual um cliente pergunta a Mashallah se ele teria posição de autoridade desejada:

“Eu encontrei a Lua unida [por aspecto] a Saturno, na exaltação deste em Libra, e significou o desfecho do assunto, de acordo com o comando de Deus. Isso foi assim porque Saturno recebeu a Lua a qual era a senhora do Ascendente e Saturno estava numa casa real [a décima] que era o local do assunto [desejado]; e a obtenção do principado pelo querente deveu-se a recepção de Saturno a Lua. Depois disso, vê-se que esse homem será transtornado em seu trabalho e o odiará devido ao ódio que Saturno tem em relação a esse local. Porque Saturno é o planeta que confere o poder ao querente, de acordo com o comando de Deus, tanto a natureza do seu poder e seu estado de espírito serão como a natureza e estado de espírito [chamado no latim de esse] de Saturno. O desfecho para o homem do qual eu falei foi de pouca utilidade. Ele não encontrou o que procurava nessa questão, mas um resultado medíocre. De fato, ele recebeu sua autoridade. Houve estabilidade na sua autoridade e força em seu poder devido aos planetas nos ângulos. Também, da mesma forma, houve pouca vantagem para ele porque Saturno, o que decretou autoridade para o nativo, estava no signo de sua queda, seu mal e sua miséria, num local no qual não havia dignidade para ele. Por mais que Saturno tivesse dado sua autoridade ao querente, esta foi odiosa devido a ódio que Saturno tem por aquele local.”

1 Comment»

  descolado wrote @

se a memória nao falha, acredito que era o contrario: mashalah era discipulo de Abu Mashar


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