Astrosphera

Ancient astrological technics uncovered.

Astrologia moderna versus astrologia medieval

Quanto aos significados essenciais de cada planeta: A astrologia moderna enfatiza o que um planeta significa essencialmente. Há uma tendência clara a ignorar o que Morin de Villefranche chama de determinação local. Por exemplo: para os modernos, independentemente da posição por casa (a determinação local), mercúrio sempre será comunicação e intelecto. Para um astrólogo medieval, mercúrio terá uma participação nisso, por que ele é o significador essencial de intelecto, mas também terá outros papéis em nada relacionados a mente do nativo. Por exemplo, se mercúrio estiver na casa sete, e não tiver relação nenhuma com a casa 1, ele descreve as parcerias que o nativo faz. Essas pessoas são “mercuriais”: podem ser intelectuais ou enganosas (a depender se mercúrio é maléfico ou não).
Quanto às técnicas preditivas: os astrólogos modernos confiam exageradamente nos trânsitos, mais até do que nas revoluções solares ou nas progressões. Na astrologia medieval, um trânsito seria a última técnica a ser observada, e mesmo assim ela tem importância apenas no contexto da revolução solar e dos ingressos (a entrada de um planeta no próximo signo). O grande erro dessa aboradgem é esperar uma bala de canhão de uma configuração que representa um tiro de estilingue: de fato, os efeitos dos trânsitos são muitas vezes aparentes, mas seu impacto dependerá em muito da confirmação de outras técnicas preditivas.
Quanto à filosofia subjacente na manifestação do planeta: Por não se fiarem no que o planeta representa por determinação local, os modernos cultivam a idéia de que a manifestação de um astro depende da cultura na qual o indivíduo está inserido. Para um astrólogo contemporâneo em contato com técnicas medievais de interpretação, esta é uma idéia razoável, mas como tudo que há abaixo do sol, não é nova. Existem claras indicações nos textos antigos de que a interpretação do mapa deve dar lugar a considerações sociais para um julgamento coerente. Abu Ali Al Khayatt, em seu livro “The Judgement of Nativities” (traduzido por James Holden, AFA, Temple, Arizona) no capítulo que ensina a encontrar sinais se o nativo será um rei ou pessoa influente, exorta ao leitor que esses testemunhos (expressão comumente utilizada, que se refere às configurações celestes representadas no mapa natal) devem ser ponderados com a constatação de que o nativo é de linhagem real ou não. Ou seja, se no mapa do Príncipe William, filho de Lady Di, há os sinais descritos por Abu Ali, isso fala a favor de que ele ocupará o trono no lugar de Elizabeth.
Apesar do “argumento sóciocultural” acima se encontrar no aparato filosófico medieval (o texto de Abu Ali data do século nove d.C.), os astrólogos antigos se fiavam nele com uma intensidade menor que a verificada atualmente. Mais proeminente do que o argumento cultural, havia a crença subjacente de que muitas características do nativo poderiam sim ser encontradas no mapa natal, incluindo condutas imorais. Enquanto um astrólogo moderno como Charles Harvey fala que o modo como Charles Manson (famoso nos EUA por manter reféns numa casa e matar cerca de trinta pessoas) usava seu Marte (agressividade) dependia unicamente do modo como ele fora criado, do seu ambiente sociocultural, astrólogos medievais buscariam no mapa dele sinais de crueldade e violência pela análise do estado cósmico de marte: que casas ele rege, qual é o seu dispositor, dentre outras técnicas.

Essas idéias entram em choque com muitos paradigmas modernos, e a estatística tem um papel importante nisso: para o homem moderno, não faz sentido um sinal representar somente apenas um tipo de evento para milhões de pessoas que nascem ao mesmo tempo. Esse argumento, embora contundente por apelar ao bom senso e ao livre arbítrio que afirmamos possuir, esbarra no desconhecimento da mecânica celeste. Uma pessoa que nasce em Bombaim terá um mapa diferente de um carioca nascido simultaneamente, pois as determinações locais dos astros nos dois mapas natais são diferentes. Mercúrios, martes e luas, apesar de se encontrarem nos mesmos signo e graus em ambos os mapas, estarão em casas diferentes, tornando quase impossível a analogia entre as duas vidas.

As idéias desenvolvidas contra a determinação absoluta dos corpos celestes são frutos da revolta contra uma produção astrológica que marcou grande parte do século vinte e dezenove, na qual se enfatizava apenas os aspectos entre dois planetas como determinantes de tabus, como a sexualidade. Reputava-se a aspectos como vênus em quadratura com Saturno a representação de tabus como homossexualismo. De imediato, percebe-se a impossibilidade dessa proposta, pois ela consiste num julgamento demasiadamente simplificado, que gerou erros recorrentes de interpretação por toda uma era, além de constrangimento dos portadores do aspecto! A depender das casas ns quais vênus e saturno se posicionam, conflitos mundanos sem relação alguma com sexualidade podem se desenvolver na vida do nativo. A revolta dos astrólogos modernos é claramente compreensível, se entendermos quantas pessoas foram injustiçadas nesse século com um julgamento infeliz dos aspectos natais, fomentado pela “astrologia científica”.

Devemos manter a humildade frente a um potencial ainda não desbravado da astrologia medieval e clássica. Decretar o indeterminismo do modo como um planeta se manifestará é uma atitude tão dogmática quanto crer que tudo pode ser encontrado no mapa natal. Parafraseando Steven Birchfield, eu lamento por todos que criticam o determinismo da astrologia medieval, por que de fato ele nunca existiu, e tampouco foi advogado pelos praticantes da arte. Encarava-se o mapa natal como uma promessa, que deveria ser confirmada por técnicas preditivas, principalmente revoluções solares. Como toda promessa, ela se realiza ou não.

2 Comments»

  yuzuru wrote @

É claro que a tradicional tem seus problemas, principalmente quando tirados fora de contexto… isso é exemplificado nos aforismos, quando interpretados separadamente, acabam ficando na mesma linha que a astrologia moderna: a linha “Jack o estripador” de dicionario de configuracoes.

Só nao concordo pq minha experiencia com os modernos é que eles nao seguem realmente filosofia nenhuma. Seguir uma filosofia implicaria em restriçao, e a única lei da moderna é “faço o que quero e chamo isso de liberdade”.

  Ricardo wrote @

“Portadores do aspecto” me soou como doeça.🙂
Se a promessa vai se realizar ou não, parece uma boa forma de se safar do erro. :-#


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