Astrosphera
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Almuten Figuris
Eu gosto de abordar astrologia medieval de um modo bastante prático. Dispensarei as considerações filosóficas por trás desse ponto para dizer a minha opinião sobre o que ele representa, não sem antes dar uma breve explicação da teologia medieval, necessária ao entendimento do ponto.
Segundo os pagãos, cada homem na terra possui uma entidade, de quem recebe proteção. A proteção mediada por esse “espírito” vem por intermédio de “sugestões intelectuais”: como se uma pessoa suspirasse em nossos ouvidos um conselho.
Apesar dessa entidade ter uma constituição tão elevada e dominante sobre o nativo, ela pode provocar, com seus “conselhos”, um comportamento compulsivo frente a todos os desafios que a vida impõe. Sem perceber a si mesmo, ou a essa entidade, o nativo pode repetir os mesmos comportamentos, ter a mesma postura frente a questões diferentes, que poderiam ser encaradas de um modo mais flexível.
Pelo fato dessa entidade “gerar” um comportamento compulsivo, que coopera para a proteger o nativo de ameaças, mas sempre com a mesma resposta, não creio que o Almuten Figuris seja sempre bom. Na verdade, é o conhecimento do que essa entidade representa que permite ao indivíduo se libertar do seu fado. E aqui entra uma estranha ponte entre a astrologia medieval e a psicanálise do século XX.
Um dos constituintes da teoria freudiana é a repetição de comportamentos, com o intuito de gozarmos, mesmo que essa repetição seja executada sobre uma postura socialmente inaceitável. Excetuando-se as considerações do princípio do prazer freudiano, é exatamente isso do que o Almuten Figuris trata.
Todas essas entidades, principados, potestades, legiões celestiais, hoje são internalizadas pelo homem moderno, e encaradas como “projeções de arquétipos do inconsciente coletivo”, ou seja lá qual teoria psicológica que você escolher para explicar essa rica elaboração de personagens que habitavam (e habitam) o imaginário humano. Dentro ou fora de nós, não importa: esses seres são elementos da psiquê humana que merecem nossa atenção, pois representam comportamentos que procuramos dissecar, a fim de que não possamos repetí-los.
Por essa razão, o conhecimento do Almuten Figuris (AF) é importante. Ele nos diz o “eterno retorno”, não no sentido filosófico da expressão, mas sim no sentido de sempre voltarmos aos mesmos comportamentos, sejam eles bons para nós ou não. Em todos os AF de todos os seres humanos reside a repetição, um comportamento automático para defesa pessoal, uma reação de “luta ou fuga”.
Quando tomarmos conhecimento dos nossos AF, teremos a opção de nos desvencilharmos deles. Os pagãos concordavam que o AF desistia de proteger o nativo uma vez em que ele se ligasse a um Deus maior, mais poderoso.
O que é esse Deus pra você? A noção de indivíduo? Jesus Cristo? Buda? Que “divindade” permite a você rasgar seu fado?