Astrosphera
Ancient astrological technics uncovered.Archive for August, 2006
A Sabedoria na interpretação
Quando o estudante inicia a delineação do mapa natal à luz da teoria das determinações de Morin, ele se perde em milhares de combinações possíveis dentro do mapa. De fato, este assunto rende um curso inteiro de astrologia, e, mesmo assim, é necessária a boa foice da experiência para ceifar toda a gama de eventuais combinações inúteis que encontramos no mapa.
Apesar da grande dificuldade inicial em nos orientarmos no mapa, o estudante pode contar com uma lâmpada para lhe guiar: as analogias planetárias. Vejamos o quão simples é esse conceito, e as dúvidas que surgem dele.
Pegue um planeta qualquer do seu mapa, anote os significados mais tradicionais dele e compare o planeta com os significados das casas com as quais ele tem relação de regência e posição. Supondo que marte esteja debilitado na casa oito, regendo as casas cinco e doze, temos as seguintes combinações:
Marte – Guerra, conquista, sangue, morte, ambição.
Casa VIII – Morte, angústia, heranças.
Casa XII – Confinamento, exílios, inimigos secretos.
Casa V – Sexo, prazer, filhos, entretenimento.
Podemos observar que há uma associação entre marte e as casas que ele rege, exceto a casa cinco. O fio condutor é desgraça, se pudermos resumir isso com uma palavra, mesmo que esta deixe os astrólogos new age de cabelos em pé… De fato, a casa V é regida pelo planeta vermelho, mas estamos aqui inclinados a pensar que marte nesse mapa terá um papel muito destrutivo, por quatro razões:
a)Ele é um maléfico essencial;
b)Ele está em queda;
c)Ele está posicionado numa casa maléfica;
d)Ele rege uma casa maléfica.
Somos levados a concluir que marte, por “maioria de votos”, possui no mapa em questão um papel nocivo por posição e dominação, e nos indagamos se ele é capaz de cuidar dos assuntos de casa cinco, cuja cúspide recebe o signo de Áries. Os períodos que marte representa podem representar momentos de muita angústia e perdas ao nativo em questão.
Exceções a regra
O segundo exemplo que possuímos pode ser dado pela minha própria carta natal. Nela encontramos mercúrio, regente das casas três (comunicação, parentes e vizinhos) e seis (doença) na casa doze (hospitais, confinamento). Temos então os seguintes significados alinhados:
Essencial de Mercúrio: comunicação, intelecto, escribas.
Casa III: Comunicação, irmãos, parentes em geral, carro.
Casa VI: doença, empregados, servidão.
Casa XII: Confinamento, hospitais.
Essa é uma configuração mais complexa que a anterior, e é preciso bom senso para julgá-a. Ela pode se manifestar simultaneamente de diversas formas, que podemos expor pela experiência do nativo. Antes, contudo, vamos levantar de qual forma esse mercúrio pode se manifestar:
a)mercúrio está em detrimento.
b)Seu dispositor é Júpiter, e se encontra angular na casa sete.
c)Está conjunto a parte do espírito;
d)Ele se encontra uma casa maligna;
e)Rege uma casa maligna;
f)Rege uma casa “neutra”, que representa irmãos e parentes, além da comunicação.
Como mercúrio está em detrimento, não podemos esperar coisas boas de sua posição. Isso faz com que a interpretação seja norteada para significados no mínimo complicados. Como ele não se encontra aflito por um maléfico, isso torna as coisas menos piores: não diríamos que seja algo fatal. Entretando, mercúrio fala aqui mais a favor de doença. O leitor deve se fiar na frase anterior para entender o próximo parágrafo.
Revelando como a configuração se manifestou, o nativo do mapa teve, no período de mercúrio, a sua entrada na faculdade de medicina. Estudou, comunicou e aprendeu em diversas instituições de confinamento, como manicômios, hospitais e laboratórios; teve a morte de dois vizinhos muito chegados, dois tios e um primo; passa a vida num isolamento constante devido a sua profunda introspecção. Todavia, nesse período, a sua comunicação “isolada” pela internet lhe rendeu muitas amizades e parcerias generosas, um namoro que o deixou muito feliz, e uma grande pesquisa do “oculto”, representada pela busca astrológica e a psicanálise. Ele encontrou no ensino e aprendizado da astrologia um grande prazer.
Todos os posicionamentos de mercúrio se manifestaram, os bons e os ruins. Dessa forma, é preciso aprender a julgar uma carta com essa inteireza no olhar. Soma-se a isso que os posicionamentos difíceis subjulgaram os posicionamentos bons e neutros, e isso se deve em muito ao predomínio de casas maléficas sobre benéficas. Por exemplo, os parentes sofreram doença e hospitalização (casas 6 e 12).
Posicionamentos ambíguos não se anulam, mas acontecem simultaneamente. Essa é a grande lição da mãe experiência.
O eixo VI – XII
Como é vulgarmente sabido em astrologia, se tomarmos a sétima casa a partir de uma casa qualquer, esta será de alguma forma oposto complementar daquela. Se a casa 1 é o “Eu”, a casa 7 é “o outro”. Essa relação é bastante difícil de ser percebida no eixo 6-12, mas John Frawley nos dá importantes esclarecimentos.
A casa 6 se refere a tudo que o mundo faz para nos agredir. Tomemos esse mundo como o mundo das idéias e das relações sociais ou mundo orgânico, com seus vermes e animais peçonhentos.
Se tenho a minha integridade física e moral, meu sistema de idéias e valores, este pode ser “lesado” por relações nas quais sou hierarquicamente inferior. Se tenho um corpo físico, este pode ser lesado por excessos de comida e bebida (júpiter ou vênus nesta casa) ou mesmo por doenças infecciosas, ou doenças decorrentes do trabalho (lesão por esforço repetitivo, LER).
Dessa forma, a casa seis não poderia se referir a uma ação pessoal, mas sim ao que ingerimos ou sofremos do mundo, mesmo que esse sofrimento tenha origem nos nossos atos, como um signo masculino na cúspide dessa casa poderia sugerir (casas com signos masculinos dizem que somos produtores do bem ou do mal da casa em questão).
Quando iniciei meus estudos de astrologia, fui ensinado de que este setor trataria do ambiente de trabalho, do aspecto entediante, da rotina. Estes significados decorrem de uma incompreensão da referência clássica a servidão e seus servos, mas minha opinião hoje é a de que esta casa não pode se referir ao trabalho per se. Realmente, o significado de “nossos empregados” que essa casa também aporta não tem relação com as “lesões que o mundo nos causa”. Isto por que as casas possuirão significados diversos a depender das relações derivadas que a casa tem com as outras do sistema. Assim, a casa dez representa a fama e a profissão pois é a casa mais elevada do mapa, mas pode representar a mãe, pois é a sétima casa a partir da casa do pai, e no entanto, até a astropsicologia de Liz Greene e Howard Sasportas, fama e profissão nada tinha a ver com os progenitores…
Voltando a questão da servidão, é preciso sondar o que representava esse conceito na era medieval, onde floreceu a astrologia e grande parte dos significados atribuídos as casas.
Quando se era servo de alguém, não havia somente uma fidelidade trabalhista. Se hoje eu posso defender uma crença diferente da ideologia do meu patrão, não se esperava isso em épocas medievais. As leis trabalhistas e os direitos individuais foram esboçados a partir do Iluminismo, “a idade da razão”. A casa seis, portanto, abriga todo esse peso da servidão não enfatizado nos manuais, um peso que escraviza o corpo e a alma, e que todos desejam manter distância de suas vidas. Qual não seria a razão da aflição de um benéfico nessas casas, senão essa? Aqui, Júpiter, o grande libertador de restrições, tem de se dobrar em sujeição servil dos assuntos que rege. Dessa forma, as restrições são apenas amenizadas, mantém-se uma bela coleira de ouro, com água e comida ao redor.
A servidão, apesar da origem diversa do significado, acaba por lesar a dignidade do nativo, uma lesão ideológica, mas hoje as abstrações às vezes são mais importantes do que a vida.
Diante de tudo que foi exposto sobre a casa seis, concluo que ela pode representar o trabalho, não em sua dimensão qualitativa (o que a pessoa faz, a descrição do seu ambiente de trabalho), mas sim em toda a sua sujeição, seja ela ideológica, moral ou física. Abrigar-se-ia nesta casa, portanto, a dimensão restritiva à individualidade no trabalho, algo muito comum ainda hoje, quando vemos pessoas que não podem mostrar a sua opinião dentro da empresa, ou são assediadas sob o risco de perderem o emprego.
Todavia, cristalizar a ligação do profundo significado da casa seis ao trabalho, como é feito comumente, leva a falta de escopo na interpretação. Qualquer dimensão de vida pode nos lesar, física ou moralmente, e a posição do regente desse assunto nesta casa pode nos dizer isso. O regente da casa seis em boa posição mundana pode mostrar a importância que tem as condições limitantes tem na vida em questão. Como provável manifestação, temos um médico, ou um psicólogo.
Enquanto a casa seis fala das lesões que o mundo nos causa, a casa doze representa coisas que causamos a nós mesmos, daí a sua relação contemporânea com o inconsciente, com a auto-sabotagem, quando o que desejo é inconsciente e contrário às situações que mantenho, sejam elas ideológicas ou materiais. Os aprisionamentos e exílios são reflexos dos nossos atos. A relação dessa casa com os inimigos secretos também não possui ligação com esse significado, pois todos nós possuímos antagonistas, seja cometendo erros, seja praticando atos dignos. Morin de Villefranche, ao interpretar seu próprio mapa, relega a si mesmo o malogro de sua profissão e se justifica pelo fato do regente da casa X se encontrar na XII, e além disso, ser um maléfico (Saturno). Isso mostra por quanto tempo a casa XII pareceu às mentes astrológicas infelicidade sem uma justificativa plausível. Todavia, por derivação, a casa XII fala das doenças do outro, pois é a sexta casa a partir da sétima, e podemos arguir ao nativo com planetas aqui presentes se ele nutre algum interesse pelo tema. E pensamos se Morin, ao escolher a medicina, não fez algo contra si mesmo.
As dignidades essenciais (por Morin de Villefranche)
Para se clarear o tema das dignidades essenciais, resta-nos valer da citação do excelente Livro XVIII da Astrologia Gallica, trabalho do grande astrólogo francês Morin de Villefranche (vide foto).
(…)Por outro lado, um planeta en seu domicílio atuará com força e continuidade, ao menos nos assuntos permanentes do tema natal, como são: o caráter, a inteligência, temperatura, etc(…)
ou seja, Morin atesta aqui que um planeta em seu domicílio representa coisas duradouras.
(…)Segundo, na medida em que está em sua exaltação, pode então atuar de forma mais intensa e eficaz sobre o mundo inferior que se estivesse em seu próprio domicilio, a causa da posição que ocupa no zodiaco, a mais proporcionada a sua virtude e de onde a dita virtude mais força cobra. E pode produzir grandes e repentinos efeitos -umas veces bons; outros, maus- segundo sua própria natureza e estado e os de seu dispositor, e segundo sua posição na figura(…)
Quando Morin fala de um planeta em exaltação, ele ressalta o caráter repentino da ação do planeta, mas o que é digno de nota é que um planeta em exaltação pode ter também, segundo o texto, efeitos maus repentinos, contrariando a posição em domicílio, que converte os planetas maléficos em benéficos. Schoener também fala a respeito da crueldade representada marte em capricórnio em determinados mapas, e fica algo a se pensar: será que o fato do planeta em exaltação não salva o indivíduo também de ter problemas decorrentes da natureza do planeta?
(…)Assim pois, Cardano disse (com mais propiedade) em otro local que um planeta que está em seu trono ou en seu Domicilio e é regente do Ascendente ou da carta natal, confere ao nativo uma grande autoridade, uma vida feliz e tranquila, tanto entre os seus como os de fora, e há de alcançar o bem com facilidade. Mas em sua exaltação, outorga, de repente, honras de un tipo maior e potestades, mas com dificuldades medianas e sujetas a frequentes mudanças. E, em suma, pressagia um status egrégio e ilustre, mas na maior parte das vezes turbulento, sobre todo se (um complemento meu) reciben maus aspectos de Saturno ou Marte. Por fim, um planeta em sua triplicidade tão somente faz que o nativo seja afortunado por seus conselhos, preces, advertências e negociações com os demais, e que seja escutado por eles(…)
As dignidades essenciais podem nos trazer importantes insights na interpretação do tema natal. Tomemos um exemplo: se um planeta está na segunda casa, em sua triplicidade, traz lucros pela natureza do planeta em questão, mas a produção planetária contará com a ajuda de parceiros e amigos em negociações, nas quais ele será escutado, segundo Cardan e Morin. Conheço uma pessoa de júpiter em aquário na casa 2 que ganhou, durante um certo tempo, somas consideráveis com um sistema de vendas de produtos importados (júpiter) que dependia de uma rede de pessoas para a manutenção do negócio (triplicidade de ar). O negócio durou alguns anos, e me pergunto se o fato de não se manter pode ser representado pela dignidade de júpiter não ser tão forte assim quanto o domicílio, que representaria efeitos mais duradouros.