pouco a pouco reavivava em sua mente seu cheiro, mas ainda era muito mental. Sua espada era o desejo, cortava qualquer adversidade. Não haverá justificativas para o que se deseja, pensou ele. E tornava a rememorar aquele perfume.
O chão límpido do aeroporto lembrava um futuro silencioso em algum lugar. Num hospital, talvez, encontraria o mesmo chão, os mesmos tons pastéis, e a mesma sensação de funcionar. Porque achava que a seta do desejo tinha de passar por vísceras tortuosas dentro de si para que fosse finalmente regurgitada. Tudo isso era funcionar. Quando a seta perfurava-lhe a vesícula no meio do caminho visceral, cuspia bile por quarenta dias e quarenta noites, amargo do próprio sabor das carnes internas, com a seta congestionando-lhe o trânsito intestinal.
Mas um dia haveria de funcionar. Sua delicada matemática ansiava por esse momento inconsistente. E há de ser com ela, pensou.